fbpx

Natal “Universitário”

Os cristãos rejeitamos a pasteurização dos momentos importantes da fé. Dizemos um sonoro “não” à paganização do Nascimento de Jesus, promovido pela cultura secularizada, que quer criar um natal “universitário”, isto é, um natal que não é Nascimento de Nosso Senhor

A relação entre religião e cultura é íntima. Segundo o insuspeito Jürgen Habermas, a própria razão tem motivos para deixar-se educar por tradições religiosas1 que, de per se, não são simplesmente racionais. O Natal de Jesus, como comemoramos no ocidente desde a cristianização da Europa, é justamente isso: a intervenção da cultura cristã sobre a cultura pré-cristã, é a interseção entre a novidade do cristianismo e o paganismo, transformando a celebração de um mito (O mito romano do Sol Invicto) em um evento que lembra o nascimento misterioso do Verbo Eterno, na pequena Belém. Segundo Joseph Ratzinger, o cristianismo não é intolerante nem absolutizante, pois tem uma natural vocação para o diálogo:

Sale
Dialética da secularização: Sobre razão e religião
  • Jürgen Habermas, Joseph Ratzinger
  • Publisher: Editora Ideias & Letras
  • Edition no. 1 (06/11/2007)
  • Livro de bolso: 104 pages

“A fé (cristã, decerto)2 deixa espaço a todas as grandes experiências espirituais da humanidade”3

Com efeito, pela natureza mesma da Boa Nova que precisa chegar a todos os povos, o próprio do cristianismo sempre foi transformar a cultura com que entrava em contato, elevando-a, purificando-a, santificando tudo o que podia ser santificado em cada situação concreta. Ocorre que, ultimamente, muito em razão do processo de secularização dos povos, as culturas nacionais é que têm influenciado a vida de fé e mesmo as reflexões teóricas dos cristãos.

Característica de um mundo globalista é a pasteurização dos valores culturais. Gianni Vattimo já decretou o fim dos metarrelatos, universalizando o caráter hermenêutico da cultura atual4. O nivelamento cultural que se assiste em nosso tempo procura desfazer ou tornar indiferentes, maleáveis, os valores próprios de cada cultura, reduzindo-os a elementos muito simples e geralmente identificados – no nível artístico – com o elemento pop. É nesse sentido que o Brasil testemunha o movimento “universitário” em sua música. Sertanejo “universitário”, samba “universitário”, música erudita “universitária“. O adjetivo “universitário” é utilizado para eliminar tudo o que é irredutível ao pensamento medíocre e superficial, consumista e imeditatista, tudo o que trata de assuntos, temas, objetivos estranhos à cultura pop. De fato, um gênero sertanejo assim concebido rejeita sua linguagem própria e, por fim, cria uma cisão na vida concreta do sertanejo de verdade; assim ocorre com os outros elementos musicais e também culturais. Nesse sentido, o que chamo de movimento “universitário” trata de assuntos que não são próprios dos elementos a que se aplicam, gerando o fenômeno curioso que é um sertanejo “não-sertanejo”, um samba “não-samba”, um terror “não-aterrorizante”. Ora, como o Natal é – em certa medida – também um evento histórico e cultural, certamente é objeto deste reducionismo pasteurizador e simplista. Há a tentativa de neutralizar o Natal, purificando-o de elementos “muito comprometidos” com o cristianismo, tornando-o mais pop, mais tolerante, mais permeável à cultura popular. Em uma palavra, mais “politicamente correto”.

Fé, verdade, tolerância
  • Joseph Ratzinger (Bento XVI)
  • Publisher: Raimundo Lulio
  • Edition no. 1 (02/01/2007)
  • Capa comum: 248 pages

O Natal “universitário” é aquele que pretende reduzir o nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo a um evento comercial ou meramente simbólico: as luzinhas dos shoppings fazem-nos esquecer a Luz verdadeira, que recebemos em nosso batismo; a árvore de natal sintética, posta na sala de estar, substitui a Árvore da Vida, na qual os batizados fomos enxertados; a ceia de natal perdeu a referência daquele único Banquete Eterno, cuja participação os cristãos anelamos. Com todas as forças, os cristãos rejeitamos a pasteurização dos momentos importantes da fé. Dizemos um sonoro “não” à paganização do Nascimento de Jesus, promovido pela cultura secularizada, que quer criar um natal “universitário”, isto é, um natal que é um “não-Natal”, um Natal que não é Nascimento de Nosso Senhor, um Natal que é um símbolo, não uma realidade. A comemoração do Natal do Senhor é momento de radicalização da fé, de volta às raízes, de aprofundamento da doutrina, de mergulho espiritual e não de neutralização do Evangelho na vida dos fiéis.

Desejo aos leitores de O Camponês, um Feliz Natal! 

1 HABERMAS, Jürgen; RATZINGER, Joseph. Dialética da secularização: sobre razão e religião. Aparecida: Ideias e Letras, 2007, p. 47: A filosofia tem também motivos para se manter disposta a aprender com as tradições religiosas”.

2 Destaque nosso.

3 RATZINGER, Joseph. Fé, Verdade e Tolerância. São Paulo: Inst. Bras. de Filosofia e Ciência Raimundo Lúlio, 2007, p. 78.

4 VATTIMO, Gianni. Ética de la Interpretación. Barcelona: Paidós, 1991, p. 55: “La hermenéutica es la koiné de la filosofía”.

Compartilhe