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A Segunda História de Eco e Narciso

A Segunda história de Eco e Narciso

(Tradução: Pedro Almendra)

“pode deixar, eu ajeito”

 

Consegue me ouvir daí? *

I.

Eis a historia que você conhece:

Narciso era um homem que de tanto amar a si, se apaixonou pelo próprio reflexo. Para ele, ninguém mais era bom o bastante. Ele encarou uma lagoa até se dissolver.

E não; essa não é a historia inteira.

Quando Narciso nasceu, sua mãe, Liríope, o levou ao oráculo Tirésias e pediu uma profecia: “Ele terá uma boa vida?

Tirésias, antes de se tornar um profeta, passou por confusos sete anos como uma mulher; fazendo duas importantes descobertas sobre as mulheres. Primeiro, que elas sentem mais prazer no sexo que os homens. Quando contou essa descoberta para Hera e Zeus, Hera, enraivecida, lhe fez cego; o que o levou até sua segunda descoberta: nem toda mulher quer ouvir sobre isso.

Zeus tentou compensar sua cegueira lhe dando o poder de antever o futuro. Tirésias, pois, deu a Liríope sua enigmática profecia:

Ele terá uma vida longa contanto que nunca conheça a si mesmo.

Ora, o que isso quer dizer?

II.

A história que você já conhece é que Narciso, de tão bonito, era desejado por todo mundo e, por sua vez, rejeitava a todos: não, não, não, não e não; não é bom o suficiente.

Uma das rejeitadas ficou tão irada que suplicou a Nêmesis, a deusa da vingança, por uma retribuição:“Se Narciso um dia se apaixonar, não deixe que seu amor seja
correspondido.

Ouvindo a súplica, Nêmesis fez com que Narciso se apaixonasse por si mesmo: eis que Narciso é atraído a uma lagoa, a encara, e se apaixona pelo que vê. O que ele via, porém, não era real; logo, é claro, não poderia devolver o amor. Mas Narciso aguardou paciente, por todo o sempre, esperando que um dia aquele ser tão belo ao fundo da lagoa viesse a emergir e, enfim, amá-lo.

Tome note dessa primeira e antecipada lição: se ninguém lhe parece ser adequado, e a única pessoa que parece adequada não quer nada com você, então, o problema não é com a
pessoa; o problema é você.

III.

O que você aprendeu até aqui? Pensa que já entendeu?

Você escutou a história, escutou as palavras, mas tudo entrou por um ouvido e saiu pelo outro; sua mente substituiu a história por outra coisa. E, ainda que eu tenha dito isso, você terá dificuldade para lembrar.

Você acha que Narciso era tão apaixonado por si mesmo que não poderia amar outro. Mas não; não foi isso que aconteceu, a história se revela pelo avesso: ele nunca amou ninguém e então se apaixonou por si mesmo. Entendeu? É porque ele nunca amou ninguém que se apaixonou por si mesmo. Eis a punição de Narciso.

Você imaginava que Narciso rejeitou aquelas pessoas porque ele já estava apaixonado por si mesmo, mas ele as rejeitou bem antes de se amar. Amor próprio? Você acha que Narciso as rejeitou por pensar que ele era melhor que todos? Ou mais bonito? Ora, como ele ia saber que era tão bonito? Ele sequer reconheceu o próprio reflexo! Ele as rejeitou porque elas o amavam.

IV.

Você pensava que o significado de nêmesis é inimigo, você pensava que é aquela pessoa que se opõe a você, aquele com quem você compete. Aquele que é algo como você, ainda que o oposto.

Essas explicações todas são suas mentiras que se esforçam para esconder a verdade: nêmesis é quem faz você se apaixonar por si mesmo. Sem Nêmesis não haveria história de Narciso. Sem seu nêmesis, você não tem história.

V.

Há ainda quem tente vender a ideia de que a lagoa encarada por Narciso era mágica e o enganou, o enfeitiçou; fez impossível desviar a vista. Isso é só uma hipótese vazia. Seria maravilhoso poder culpar a lagoa como um homem culpa a mulher que o tenta . A verdade é que nenhuma magia era necessária: Nêmesis só precisava levar Narciso para uma lagoa ordinária, que Narciso puniria a si mesmo.

Que fez Narciso quando viu alguém belo naquela lagoa? Fantasiou e sonhou todas as possibilidades daquela pessoa, todas as coisas que aquela pessoa poderia ser para ele. Ele não permaneceu lá por tantos anos devido ao cabelo bonito do reflexo. Ele permaneceu porque fantasiar toma tempo.

E, como Ovídio descreveu, havia outro:

Porém tal, que apesar d’aspera repulsa, Nela amor permanesce, e sempre cresce. Vigilantes cuidados lhe atenuam, O misérrimo corpo; vã magreza, A pele lhe contrai e todo o
sulco Vital se exalta aos ventos; só lhe restam…” **

O quê? O que você pensa que resta? Talvez a resposta seja distinta para cada um, mas eu acho que sei a resposta que você gostaria de ouvir: qualquer coisa que não o nada.

VI.

É uma historia esquisita. Você sabe que o personagem principal é Narciso, mas o título é “Eco e Narciso”. Por que então supomos que Eco é apenas uma coadjuvante? Quem fez de Eco uma coadjuvante?

Eco era uma ninfa com uma bela voz. Ela, porém, falava muito, então Hera a amaldiçoou a poder apenas repetir aquilo que alguém diz. “Oh!” posso até ouvir você dizendo; “É daí que veio a palavra eco!”…Vê se cresce! Você acha que isso é apenas uma história infantil como a sobre o leopardo e suas pintas? Não, isso não é um conto de fadas; é um alerta.

Eco se apaixonou por Narciso. Ela o seguia, perseguia; ansiava por ele, mas ele não queria nada com ela; rejeitou-a cruelmente. Mas mesmo depois da morte de Narciso, ela o ansiava; perdendo-se nesse amor, e, eventualmente, se desgastando em nada além de uma voz.

Ele provavelmente tinha sua razão em rejeitá-la: que tipo de mulher ama um homem baseada tão somente em aparência? Que tipo de mulher ama um homem ainda que ele a maltrate? Por que raios Narciso iria querer alguém assim? Ela não era uma mulher de bela voz; era apenas uma voz.

Voltemos ao início de sua história, insisto: ao verdadeiro início de sua história, ou você acha que isso é um sonho e começa na metade? Se assim fosse, teríamos de interpretar como um preenchimento e não como um alerta.

No princípio, Eco o vigiava, escondida, mas Narciso sentiu que algo estava ali — animou-se com isso —;“Vem cá!”, gritou. “Vem cá”, ela só podia ecoar, e manteve-se escondida, o que apenas fez crescer o desejo de Narciso. Que mistério é esse? Ele não podia vêla, mas podia ouvi-la, e, naquela voz insondável, se encarnava todo o amor que ele podia imaginar. Ajudava, é claro, que aquela mulher misteriosa falasse sempre a coisa certa. Ela era perfeita em todo aspecto, ela era a causa de seu desejo.

Eis que ela se revela; ele a vê.

Era bela? Sem dúvida. Mas, no momento em que ele a viu, ela perdeu toda a graça, “Antes eu morra, que seja tua minha vontade

O que tinha de tão errado nela? Não é que ela fosse menor ou mais pesada do que ele imaginou. O problema é que, no instante em que ela se fez experiência, ela deixou de ser todo o resto.

Todavia, se Eco não mais era uma projeção, era ainda um reflexo. Eco, como toda mulher, ofertava ao seu homem uma espiada dentro de sua alma, tudo o que era preciso fazer era olhar: “Que tipo de homem sou eu que só atrai o tipo de mulher a quem só interessa minha beleza? Apesar do modo que a trato? Que tipo de homem sou eu que só atrai o tipo de mulher que gosta de mim por X? Seria porque não há nada de valor em mim exceto X?”. Acontece que ele nunca foi ensinado a fazer esse tipo de pergunta. Pior: ele foi ensinado a nunca fazer esse tipo de pergunta. Que tipo de homem atrai uma mulher que só pode ecoá-lo? Ai de existir um nome para esse tipo de pessoa; ele já o tinha.

Se tivesse considerado isso, ele poderia ter mudado, ou pelo menos ter reconhecido o quão similares eles eram.

Assim como Eco se dissolveu em seu X, uma voz, Narciso se dissolveu em uma flor bonitinha — o seu X.

Nada mais restou.

VII.

Como pode ser que, séculos passados, a profecia de Tirésias siga incompreendida?

A profecia: ele terá uma vida longa contanto que nunca conheça a si mesmo.

E aí; o que isso quer dizer?

Sim, ele estava certo: Narciso teve uma longa vida— ainda que não uma vida feliz. Ele passou a vida só, sonhando; fitando uma lagoa e esperando pela morte.

A profecia de Tirésias parece ser muito errada ante o espírito grego, uma afronta à lógica; não seria “conhecer-se a si mesmo” a maior das virtudes?

Ele terá uma vida longa contanto que nunca conheça a si mesmo.

Mas é tão simples, a explicação… Tão simples que ninguém pensou nela, e o motivo de ninguém ter pensado nela é que se trata de algo muito terrível a se pensar.

Não se importe com a veracidade da profecia. Do contrário, pergunte: “o que fariam os pais dele ao escutar a profecia?

Quando Laio e Jocasta souberam que Édipo iria eventualmente os destruir, eles prenderam seus tornozelos e o abandonaram no mato — certificando-se de que ele teria um motivo para destruí-los —. Foi o mesmo quando os pais de Narciso ouviram a condição da vida longa de seu filho… Eles iriam fazer o possível para que ele nunca conhecesse a si.

Ninguém sabe o que Liríope e Cefísio fizeram, mas o que quer que tenha sido, funcionou: ele sequer reconheceu o próprio reflexo. Eis um homem que não conhece a si mesmo. Eis um homem que nunca teve de olhar a si mesmo desde fora.

Como se faz uma criança conhecer a si mesma? Você a cerca de espelhos. “Isso é o que todo o resto vê quando você faz o que faz. Esse é quem todo mundo pensa que você é.”

Você faz com que ele seja testado: eis o tipo de pessoa que você é; você é bom nisto e não naquilo. Essa outra pessoa é melhor que você nisso, mas não naquilo. Esses são os limites a partir dos quais você se define. A Narciso nunca foi permitido que encontrasse perigo real, glória, agonia, honra, sucesso, fracasso; tão somente versões artificiais, manipuladas por seus pais. A ele nunca foi permitido perguntar “eu sou covarde? Eu sou burro?”. Para se certificar de sua chatíssima longevidade, seus pais não queriam uma resposta definitiva em qualquer direção.

A ele foi permitido viver em um mundo de especulação, de fantasia, de “algum dia” e de “quem sabe se”. Ele nunca teve que escutar um “ruim demais”, um “pouco demais” e um “tarde demais”.

Quando você quer que uma criança seja alguém na vida; antes, você o ensina a dominar seus impulsos, a lidar com a frustração. Mas quando um desejo surgia, os pais de Narciso, ou o concediam ou escondiam dele para que sequer se tentasse; para que não fosse preciso dizer “não”. Eles nunca o ensinaram a resistir a uma tentação, a lidar com uma falta. E eles certamente não o ensinaram a não desejar o que não se pode possuir. Eles não o ensinaram como desejar.

O resultado é que ele deixou de ter desejos, e, no lugar, passou a desejar o sentimento de desejar.

Nêmesis tinha um trabalho fácil, ela precisava apenas trabalhar em revés: o mostrar algo que não retornasse seu amor, e ele estaria preso.

Os pais de Narciso eram semideuses— não sabiam eles como criar um bom filho? Ou o que pais de verdade devem fazer? Ainda assim, eles escutaram um charlatão. Receberam uma informação sem sentido por um suposto expert e abandonaram todo o bom senso; criaram um monstro que trouxe morte a pelo menos uma pessoa e miséria a todo o resto.

VIII.

Sei o que você está pensando. Você é lido, é cínico, é cético. Você não cai nessa balela de destino. Você está questionando se é verdade que não amar os outros vem antes de amar apenas a si mesmo — a você parece o contrário. Você está se perguntando, o que essa menina sabe de fato? Afinal, ela não escreveu isso. (será?) ***

Você está se perguntando se é verdade que os pais criam o narcisismo que persegue seus filhos até o final da vida. Isso se encaixa com a sua experiência? Você está tentando relembrar sua própria infância.

Não é?

Isso significa que você não entendeu a lição. Lá vai você de novo: pensar sobre si mesmo. Seu impulso não foi dizer, “estou fazendo isso com os meus filhos?” Mas sim se perguntar sobre a sua própria natureza.

A moral da história de Narciso, dita como um alerta para aqueles que se recusam a escutá-la dessa forma, é que o destino de Narciso é irrelevante. O que importa é o que ele fez, e o que ele fez…foi nada.

IX.

Sei que eu deveria parar por aqui, sei que você já teve o suficiente. Mas deixe eu contar uma coisa a mais: há um segredo nessa história. Consegue adivinhar qual é?

Feche seus olhos.

Imagine a cena como uma larga pintura posta à parede. Lá está Narciso ante a lagoa, com a cabeça inclinada, seus braços tateando a água, sua mente perdida em fantasias. Ao seu redor estão as árvores, a grama, o céu. Nêmesis está detrás, com os braços fechados, assistindo à punição.

Olhe bem a feição no rosto de Nêmesis. Há algo estranho ali. Olhe o seu olhar mais de perto.

Ela não está olhando Narciso, apenas parece que ela está olhando para Narciso. Ela está olhando você.

Sim; a história não é sobre Narciso, sempre foi sobre você. Nunca houve aquela distância objetiva entre você e a história que está assistindo.

Era tudo meio que uma charada.

Os antigos não contavam essas histórias para passar o tempo ou para ensinar uma lição às crianças, ou mostrar de onde veio a palavra “eco”. Você acha que pegamos a cultura pop deles e transformamos em nossa literatura? Essas histórias eram meditações, estudos de caso: o que você vê nelas?

O segredo da história de Narciso é que a história é a lagoa, é a sua lagoa. O que você vê nela? É um reflexo, uma projeção.

Mas você sabe daquele dizer antigo; quando você olha uma lagoa, a lagoa te olha de volta. E o que essa lagoa vê quando te encara? Como ela te julga?

Olhe atrás de você. Lá está Nêmesis. Você pode adivinhar qual será sua punição?

Abra seus olhos.

A você foi dada uma segunda chance.

Nada disso é real.

…………

*esse texto foi usado como script em um áudio publicado no blog, onde é lido por uma menina de oito anos.
** Tradução de Francisco José Freire na edição feita por Aristóteles Anghben Predebon em sua tese de graduação da USP.
*** Menção à menina de oito anos que lê o texto no áudio já mencionado.

Texto original: https://thelastpsychiatrist.com/2012/10/the_story_of_narcissus.html
Áudio original: https://youtu.be/o6xPGriEDIM

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