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As grandes questões do Major Scobie

* Sergio de Souza

“O fedor do pecado humano vai além do que consigo suportar”, canta Nick Cave em “Christina, the Astonishing”. A canção versa sobre a mística belga Cristina, a Admirável, que, depois de ter literalmente morrido e conhecido o horror em que vivem as almas do purgatório, recebe uma segunda chance e volta à vida. Chegando novamente a este plano, passa a ter tal aversão pelo pecado que desenvolve um espantoso dom místico: a levitação. Aliás, os relatos dizem que Cristina “voava” e pairava longe dos homens porque não suportava “o fedor do pecado humano”.

Foi justamente esta frase que me veio à mente quando terminei a leitura do romance “O Cerne da Questão” (na edição em que li, o título está horrivelmente traduzido como “O Coração da Matéria”).

O livro narra a história de Scobie, um major inglês, que vivia em um país da África Ocidental (sabemos ser Serra Leoa pelas memórias de Greene) com sua esposa, a solitária Louise, amante de poesia, que se sente uma “estranha numa terra estranha”. Scobie sente-seresponsável por sua felicidade, deseja ajudá-la, mas as circunstâncias (o trauma com a morte da filha em um naufrágio, as dificuldades em sua profissão, uma promoção que lhe escapa, etc.) o impedem de agir e o paralisam.

Pressionado por Louise e pela visão diária de seu sofrimento, Scobie a envia para a África do Sul. Nesse ínterim, um novo naufrágio traz à memória as dores traumáticas do major: ele testemunha a morte de uma menina (a cena da morte da menina, que o chama de “pai” [é interessante relembrar que Scobie já estava na África e não presenciou a morte da própria filha na Inglaterra] é uma das mais impressionantes da literatura, uma espécie de déjà vu que faz submergir toda a carga de dor da morte de sua própria filha) e entre os sobreviventes estão um garoto para quem passa a ler histórias no hospital e Helen Rolt, que fica viúva no acidente e logo se tornará sua amante.

Além disso, há o inspetor Wilson, que apaixona-se por Louise, e a figura de Yusef, contrabandista sírio que chantageia Scobie ao descobrir seu adultério. Todos esses elementos criam um ambiente perturbador em que se desenrola o enredo de “O Cerne da Questão”.

Como todo grande romancista, Greene toca nas questões essenciais: o mal, o livre-arbítrio, a graça, a redenção, a responsabilidade por nossas escolhas, o sentido da vida e, como disse Camus, a questão filosófica por excelência, o suicídio. E o pecado, um dos temas prediletos de Greene, a dimensão do pecado, o tamanho e as consequências terríveis do pecado. O fedor do pecado. Daí a frase da música de Nick Cave.

Não precisamos dizer que Graham Greene é um mestre em narrar os conflitos psicológicos, as angústias próprias da natureza humana, a dificuldade de transformar o amor romântico em algo concreto, a busca agônica pela felicidade (um paradoxo cujo leitor de Greene bem sabe).

No fim das contas, a grande questão que Scobie deve enfrentar, e a Dama Realidade não o priva desse embate, está contida no Primeiro Mandamento do Decálogo: “Amar a Deus sobre todas as coisas”. Scobie está dividido entre o amor humano (representado por sua esposa e por sua amante), que, sem a graça, está fadado ao fracasso (o adultério mostra que o amor humano já está cindido), e o amor a Deus, onde está a única possibilidade real de redenção.

É aqui que entra uma terceira via e este é um ponto-chave para que o leitor mergulhe sua consciência no universo de Greene: o desespero também pode ser uma forma de alcançar a graça divina. Especificamente neste livro o autor medita sobre isso. O major Scobie buscou no suicídio uma forma de salvação e Greene sugere que a via escolhida – o desespero — pode tê-lo feito alcançar a graça… Atravessar a tempestade purificadora do desespero pode ser um modo de conhecer a si mesmo e assim fazer o salto de fé necessário para encontrar a Deus e, mais particularmente, a Jesus Cristo. E, unindo-se ao Cristo, cortejar a redenção. Não só para si. A consciência atormentada do Major Scobie deixa-se levar pela sedutora ideia de que seu suicídio também poderia ser redentor para Louise, para sua amante, e até para o próprio Deus, que se veriam livres de seu ser amaldiçoado, carregado de pecados, como o Cristo no Gethsêmani, que assume sobre si todo o peso do pecado do mundo, como uma pirâmide invertida:

“O amor de Louise era como uma sentença de morte. Dizia ele àqueles dedos que arranhavam desesperados: “Ó Deus, seria melhor que uma pedra de moinho… Não posso fazê-la sofrer, não posso fazer a outra sofrer e não posso continuar fazendo-Vos sofrer. Ó Deus, se me amais como eu sei que me amais, ajudai-me a abandonar-Vos. Deus querido, esquecei-me.”(p. 251)

Scobie tem, diante do amor humano, plena ciência de que não conseguira trazer a tão esperada felicidade para suas duas parceiras. Em relação a Deus, tem a absoluta certeza de que seus pecados são permanentes bofetadas na face de um Deus que é amor. A cena da comunhão sacrílega, para a qual ele se deixa arrastar por não desejar transparecer para a sua esposa o adultério cometido, é um primor: a vertigem de um homem, como um condenado no corredor da morte, caminhando para a sua própria perdição. Em certo sentido, o major coloca-se a si mesmo na figura do bode expiatório, seguindo os passos de Cristo, cujo sacrifício de si mesmo pode reinstalar a paz no mundo. Ele se perde para que os outros vençam. É o herói silencioso, que em sua aterradora solidão, alcançou a misericórdia através de um naufrágio existencial que só os dotados de uma coragem infundida pelo espírito divino podem alcançar. O desespero é a ascese final que o faz chegar ao paraíso pelo seu “lado escuro”. Ledo Ivo assim se manifestou sobre a Mouchette de Bernanos (outra pobre desgraçada, esmagada pela presença do Mal): “Todos os seres humanos serão perdoados e salvos. No fundo das águas pantanosas a suicida Mouchette encontrou o Paraíso. Tout est Grâce”. Embora se transfigure de beleza, é um caminho perigoso, satânico até… O próprio Greene mudaria essa visão com “Fim de Caso”, seu livro seguinte, e, ainda assim, ousaria colocar nele uma santa adúltera.

Ao mesmo tempo, existe a tese de que o suicídio poderia ter sido uma solução fácil. O major Scobie escolhe um “final feliz” (1), que compreende não passar pelas noites deste mundo — (essas noites tão carregadas de significado da mística cristã), — não enfrentar a tragédia das agulhadas diárias (como disse aquela burguesinha de Lisieux), não se munir da ardente paciência necessária para esperar a maturação da colheita, a separação do joio e do trigo, a jornada ascética que em algum ponto do caminho permitirá dar ouvidos ao seu “eu profundo” (Bergson), ao “fundo insubornável do ser” (Ortega). A grande tentação é o fazer justiça com as próprias mãos. É o que faz o major. Só que, no caso, a vítima sacrificial que se imolou no altar foi ele mesmo, refém de sua própria ilusão, enquanto a realidade lhe oferecia o caminho do verdadeiro sacrifício, a metanóia, o amor que “as torrentes não poderiam extinguir, nemos rios o poderiam submergir.” (Cântico dos Cânticos 8, 7)

O Cerne da Questão”, com todas as suas qualidades (coloca-nos em contato com a “grande conversação”, vide as questões que levanta) é um livro que padece daquela “mística do pecado” que o teólogo Hans Urs Von Balthasar tanto criticou(2) em Bernanos(3), Julien Green e em Mauriac. Esses escritores querem alcançar o divino por meio da arte, e esta, se não estiver afinada com o Divino, vira território do demônio (4). O Belo que se aparta do Bom e do Verdadeiro descamba para o esteticismo(5), a eterna tentação da literatura, mesmo esta, que pode ser classificada de cristã (a contragosto de muitos, inclusive dos próprios autores).

Ao lado de “O Poder e a Glória” e “O Condenado” (alguns incluirão “Fim de Caso”), “O Cerne da Questão” forma a tríade de obras-primas do americano. A prosa de Greene — acostumado a tramas internacionais, recheadas de detetives — é sempre instigante, atropeladora de consciências, tal a avidez que provoca no leitor seduzido. Cabe a releitura, o aprofundamento, a meditação e o discernimento, tendo em vista a profundidade e a gravidade dos temas colocados. A leitura é uma travessia, uma experiência. Uma jornada da qual não sairemos incólumes.

 

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1.No romance “A paz dura pouco”, de Chinua Achebe (um dos mais destacados autores africanos de nosso tempo), há uma cena em que o personagem central, Obi Okonkwo, está numa entrevista de emprego e ele e o diretor da Comissão discutem o romance de Greene:
“O senhor diz que é um grande admirador de Graham Greene. O que acha de O coração da matéria?”“O único romance sensato escrito por um europeu acerca da África Ocidental e um dos melhores romances que já li.” Obi fez uma pausa e depois acrescentou, quase como uma ressalva: “Só que quase se perde completamente por causa do final feliz”.

O diretor ergueu os ombros em sua cadeira.

“Final feliz? Tem certeza de que está pensando em O coração da matéria? O policial europeu comete suicídio.”

“Talvez final feliz seja uma expressão forte demais, no entanto não consigo expressar de outra forma. O policial fica dividido entre seu amor por uma mulher e seu amor a Deus, e comete suicídio. É simples demais. A tragédia não é nem de longe assim. Eu me lembro de um velho em meu vilarejo natal, um cristão convertido, que sofreu várias calamidades seguidas. Dizia que a vida era como uma tigela de absinto, que a gente bebe um pouquinho de cada vez, para sempre. Ele compreendia a
natureza da tragédia.”

“Você acha que o suicídio estraga a tragédia”, disse o diretor.

“Sim. A tragédia de verdade nunca se resolve. Prossegue para sempre sem esperança. A tragédia convencional é muito fácil. O herói morre e nós nos sentimos purgados de nossas emoções. Uma tragédia de verdade se passa numa esquina, num local sujo, para citar W. H. Auden. O resto do mundo não tem consciência daquilo. Assim como aquele homem em

Um punhado de póque fica lendo Dickens para o sr. Todd. Não existe libertação para ele. Quando a história termina, ele ainda está lendo. Não existe purgação das emoções para nós, porque não estamos lá.”
(ACHEBE, Chinua. A Paz Dura Pouco. Trad. Rubens Figueiredo — 1ª ed. — São Paulo: Companhia das Letras, 2013.)

2. BALTHASAR, Hans Urs von. O Cristão e a Angústia. 2ª impressão. São Paulo: Fonte Editorial, 2004.

3. Olavo de Carvalho excluirá Bernanos da tese da “mística do pecado”: “Enquanto um Mauriac, um Julien Green, um Graham Greene julgavam que o romance cristão não podia ter outro assunto senão o pecado, com uma redenção apenas de longe insinuada, ele [Bernanos] foi o único escritor, realmente o único em toda a literatura universal, que conseguiu fazer da santidade a própria matéria da trama romanesca. Seu Diário de um pároco de aldeia, que André Malraux e o General de Gaulle consideravam o maior romance da língua francesa, é um tour de force artístico em que, violando todas as leis aparentes do conflito ficcional, o mal não aparece senão na periferia da cena, o centro estando ocupado, sem cessar, pela Graça santificante.” (“A glória silenciosa de Bernanos.”, In:“A dialética simbólica: Estudos Reunidos”, São Paulo: É Realizações, 2007. )

4.“Alguns de meus amigos dizem que sacrificar assim a obra maior em favor de urgências do dia é um pecado contra a santidade da vocação. Mas o contrário seria um pecado contra a caridade. Afinal, como dizia Yeats, há momentos em que o escritor tem de escolher entre buscar a perfeição da vida ou a da obra: se escolha a da obra, faz um pacto com o diabo. Felizmente, há também ocasiões em que essa oposição dilacerante se resolve no acordo feliz de vocação e circunstância (para usar os termos de Julián Marías).” (CARVALHO, Olavo. “Que é o direito”. In: http://www.olavodecarvalho.org/apostilas/direito.htm)

5.CUNHA, Martim Vasques. 1.ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2015.

Sergio de Souza é editor de O Camponês.

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