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As três tentações da vida cristã

Pedro Ribeiro*

O livro dos Atos dos Apóstolos narra, no capítulo 2, 41-47, a vida da primeira comunidade cristã em Jerusalém. Segundo o consenso mais ou menos unânime dos teólogos, a passagem, porém, é mais do que isso e apresenta não só a vivência histórica daquela comunidade específica, como também o modelo ideal e perfeito de toda e qualquer verdadeira comunidade cristã.

Pois bem, se fazemos uma leitura atenta da passagem, há três elementos ou virtudes fundamentais destacados ali. Em primeiro lugar, há a ortodoxia, isto é, à fidelidade aos ensinamentos doutrinais de Jesus e da Igreja (os discípulos “ouviram a palavra” de Pedro e “perseveraram na doutrina dos apóstolos”). O segundo elemento é a devoção espiritual (a comunidade “orava”, “frequentava diariamente o templo”, celebrava a “fração do pão” eucarístico “nas casas”, notava os “milagres dos apóstolos”). Por fim, há a virtude da caridade fraterna e da doação pelos irmãos vivida até às últimas consequências (os discípulos “viviam unidos e tinham tudo em comum”, “vendiam seus bens e partilhavam entre si” e “angariavam a simpatia do povo”)

Eis aí, com efeito, os três pilares não só de qualquer comunidade eclesial, como também de toda vida cristã autêntica: fidelidade para com a doutrina de Cristo, vida oracional-litúrgica e doação pelos demais. A santidade consiste precisamente no equilíbrio entre esses três pólos.

É natural, sem dúvida, que uns se sintam mais inclinados a um desses pólos do que a outros. Como ênfase, não há problema algum. As próprias ordens religiosas tendem mais para um ou outro lado. O carisma dos dominicanos e o dos jesuítas é mais doutrinal.O dos beneditinos e o dos cartuxos é mais oracional. O dos mercedários e o das missionárias da caridade é mais prático.

Trágico e triste, porém, é quando um desses aspectos ganha tal força que amputa ou mutila os outros dois aspectos. São, pode-se dizer, as três tentações da vida cristã.

A primeira tentação é, poderíamos dizer, a do fariseu. Trata-se do zé-doutrina. Conhece o catecismo de cór, estuda a Suma teológica, os Doutores e Santos Padres (muitas vezes nem isso, mas faz pose). Sua vida de oração, porém, é fria ou fetichizada. Mostra-se incapaz de sacrificar-se pelo próximo nas concretudes da vida. Na sua boca, a verdade da doutrina não é bela e cheia de vitalidade, mas sempre anunciada sem caridade, imposta na base da marretada. É a tentação mais visível em certos ambientes tradicionais católicos.

A segunda tentação é a do coríntio (narrada por São Paulo na Primeira Carta aos Coríntios). Trata-se do sujeito que se dedica inteiramente à oração e à vida litúrgica. Sem bases doutrinais sólidas e sem transbordamento na doação pelo irmão, a oração, porém, acaba caindo num certo sentimentalismo. O que importa é “sentir Deus”. Crer sem erro no que ele ensina e fazer uma conversão de vida já não é tão importante. O fetichismo litúrgico e a hipervalorização dos milagres também são riscos aqui. Trata-se de uma tentação mais comum em ambientes da renovação carismática católica.

Por fim, há a tentação do zelote. O risco aqui é o ativismo [é a tentação de Marta, irmã de Maria]. O estudo da teologia e o apreço pela doutrina sagrada é desprezado, os dogmas muitas vezes negados. A vida espiritual perde o seu valor intrínseco de comunhão pessoal com Deus e se torna mero meio ou instrumento que “dá força” para fazer o bem. O amor aos pobres, que é essencial ao Evangelho, mas não é sua totalidade, nem sua parte mais importante, é muitas vezes vivido de modo ideológico. O risco de politização da fé é grande. Trata-se de um risco maior e mais frequente nos diversos ambientes associados à teologia da libertação, sejam os propriamente heréticos ou os lícitos.

Não nos esqueçamos (e o primeiro a ler esse post sou eu mesmo): os discípulos da santa comunidade originária de Jerusalém “estavam a caminho da salvação”, como diz o versículo 47, porque viviam de maneira radical, harmônica e integrada essas três dimensões.

Crer tudo o que Cristo ensina por meio de sua Santa Igreja Católica. Rezar e louvar o Cristo na oração, na vida litúrgica e na vivência dos sacramentos (maiores “milagres” da Igreja), em especial na Santa Missa. Doar-se generosamente pelos irmãos, como Cristo fez por nós, em especial pelos mais necessitados e por aqueles que nos são mais próximos (minha mulher, minha filha, meu pai, minha mãe, meus alunos). Equilíbrio, sempre.

 

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* Pedro Ribeiro é graduado em filosofia pela UERJ e trabalha como professor da disciplina nos âmbitos do Ensino Médio e de pré-vestibular.

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