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Cristo presente no pão eucarístico, Cristo presente no Pobre

Pedro Ribeiro *

“No dia do Juízo, quando Cristo chamar para o prêmio da bem-aventurança a todos os santos, as palavras e o relatório daquela gloriosa sentença serão estas: “Vinde, benditos de meu Padre, possuir o reino que vos está aparelhado: porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era peregrino, e me hospedastes; andava despido, e me vestistes; estava enfermo e no cárcere, e me visitastes.” (Mt 25, 34-36) – Ouvida esta sentença tão alegre e venturosa para todos os que a mereceram ouvir, que fariam? Cuidava eu que, prostrados por terra, dariam a Cristo as graças, e logo a si mesmos o parabéns, não cabendo dentro de si de prazer; mas o que fizeram foi como por embargos à sentença, e apelar ou agravar dos fundamentos dela. Diz o evangelista que responderam: – “E quando fizemos nós, Senhor, essas obras que alegais por nossa parte, e premiais como merecimentos nossos? Quando vos vimos nós com fome, e vos demos de comer, ou com sede, e vos demos de beber? Quando vos vimos peregrino, e vos hospedamos, e despido, e vos vestimos? Ou quando vos vimos enfermo e no cárcere, e vos visitamos?” (Mateus 25,37-39). Isto é o que replicarão sobre a sua sentença os bem-aventurados, e com réplica muito bem fundada e verdadeira, porque todos, ou quase todos, não tinham visto a Cristo, e muito menos naquelas ocasiões de necessidade ou pobreza em que o socorressem. Pois, Senhor, se estes homens nem vos viram, nem vos socorreram com essas obras de caridade que referis, como as alegais na sua sentença, e por elas os premiais com a bem-aventurança?

Só Cristo podia responder a esta réplica, e assim foi ele o que logo respondeu, declarando a mesma sentença e a verdade do que nela tinha alegado: “É verdade – respondeu o Senhor – que vós não me vistes como dizeis; mas eu vos digo e vos afirmo com juramento sei também verdade que me fizestes tudo o que eu aleguei na vossa sentença, porque bem lembrados estareis que todas aquelas obras de caridade as fizestes aos pobres, e tudo o que fizestes a cada um deles, me fizestes a mim” (Mt. 25, 40) – De sorte que quando o pobre padece o seu trabalho e a sua necessidade, padece-a Cristo, e quando vós socorreis e fazeis a esmola ao pobre, fazei-la a Cristo; logo, ou Cristo está no pobre, ou é o mesmo pobre. A primeira destas conseqüências é de S. Cipriano, a segunda de S. Pedro Crisólogo, e ambas de todos. Para o homem socorrer e fazer esmola ao pobre, bastava ser homem como ele; mas quis Cristo estar no mesmo pobre, diz Cipriano, para que quando não fosse bastante motivo de o socorrermos, este respeito do que ele é nos obrigasse a não deixar de o fazer a reverência e dignidade de quem nele está, que é Cristo.

Diz excelentemente S. João Crisóstomo, comparando as palavras da consagração com as da sentença do dia do Juízo, umas e outras pronunciadas pelo mesmo Cristo: “Aquele Senhor, que disse: Este é o meu corpo – esse mesmo disse: Tive fome e me destes de comer.” – E assim como pela virtude daquelas palavras nos ensina a fé que está Cristo realmente debaixo das espécies de pão, assim nos certifica diz o mesmo Crisóstomo – que está também realmente debaixo das espécies do pobre. E se alguém me perguntar, ou ao mesmo santo, como formou Cristo de uma tão diferente matéria, qual é o pobre, outro segundo Sacramento tão semelhante ao primeiro, responde por Crisóstomo, Crisólogo, ambos com palavras de ouro: ” Não disse Cristo: ‘o pobre teve fome, e vós lhe destes de comer a ele’ – senão: ‘eu tive fome, e me destes de comer a mim’ – e este foi o modo de uma transefusão – diz Crisólogo – com que o mesmo Senhor se infundiu no pobre, ou refundiu o pobre em si.

Até os gentios reconheceram nos pobres e miseráveis algum gênero de consagração, por onde disse altamente Sêneca: “O pobre é sagrado”. Na consagração propríssima da Eucaristia a substância de pão converte-se em substância de Cristo, e a esta conversão de substância chamam os teólogos transubstanciação; na consagração, a seu modo, da pobreza, infunde-se a pessoa de Cristo no pobre, ou a do pobre em Cristo, e a esta conversão de pessoas chamou Crisólogo transefusão – tão parecido é Cristo a si mesmo em um e outro sacramento, e tanto merece a semelhança do segundo o nome do primeiro.

Temos visto a Cristo Deus e Senhor nosso duas vezes e por dois modos sacramentado: uma vez em pão, e outra no pobre. Agora resta saber a que fim, que é o ponto principal, e o fecho de todo este discurso. A que fim, tendo-se Cristo sacramentado uma vez em pão, se quis sacramentar outra vez no pobre? Digo que se sacramentou em pão para nos sustentar a nós, e que se sacramentou no pobre para que nós o sustentássemos a ele. E este é o modo com que pagamos a Cristo, enquanto sacramentado no pobre, um pão com outro pão. Não o mesmo pão, senão outro, porque o pão que nos dá Cristo é o pão do céu e da vida eterna, e o que nós pagamos ao pobre é o pão da terra e da vida temporal, mas em um e outro, tanto por tanto, porque tão necessário é este para esta vida como aquele para a outra.”

Selecionado e adaptado do “Sermão das Obras de Misericórdia”, do Padre Antônio Vieira.

* Pedro Ribeiro é professor de Filosofia

 

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