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Dois textos para conhecer São Pedro Nolasco

por Pedro Ribeiro*

O último 29 de Janeiro foi dia de um santo infelizmente pouco conhecido, porém de grande história de vida: São Pedro Nolasco (1189 – 1256). Nascido na França, mas tendo vivido a maior e mais importante parte de sua vida no que hoje é a Espanha, São Pedro dedicou-se sempre e intensamente às obras de caridade, junto aos pobres e desvalidos. O momento mais importante de sua vida, entretanto, o qual mudou sua história, ocorreu quando a própria Virgem Maria lhe fez uma aparição.

De fato, àquela época, no século XIII, os muçulmanos, popularmente chamado de mouros, dominavam boa parte da península ibérica e empreendiam dura luta contra os cristãos. Neste processo de guerra, muitos cristãos acabavam por ser escravizados pelos seguidores de Maomé. A Virgem, então, aparecendo a Pedro, mandou que ele criasse uma ordem religiosa especificamente voltada para a redenção dos escravizados, cujo drama ele tão bem conhecia. Mais: aparecendo vestida em um manto totalmente branco, a Mãe de Deus indicou ainda que era do seu agrado que a nova congregação tivesse por hábito uma veste como aquela.

Obediente, São Pedro Nolasco cumpriu a ordem de Maria e tornou-se o fundador da Ordem de Nossa Senhora das Mercês, isto é, das misericórdias. Rapidamente criando um grupo fiel em torno de si e contando inclusive com o apoio de reis, o santo resgatou vários e vários irmãos de fé oprimidos. Seu procedimento, neste trabalho, era sempre o mesmo: primeiro, coletar o maior número de esmolas possível; depois, expor-se ao perigo de entrar em território inimigo à procura de escravos cristãos; terceiro, oferecer ao dono do escravo um valor em dinheiro para compra de sua liberdade; enfim, trazer o irmão batizado de volta aos territórios católicos.

Havia, porém, mais um detalhe. Segundo o próprio Nolasco, o que o movia em seu fervor apostólico era, evidentemente, o sofrimento injusto padecido por um filho de Deus, mas sobretudo o risco que este possuía de perder a própria fé. Com efeito, era muito comum que os escravos, para interromperem seu drama e viverem em liberdade, acabassem aderindo, ao menos exteriormente, à fé muçulmana. Para impedir este mal, São Pedro tomou uma decisão e acrescentou aos três votos religiosos tradicionais (pobreza, castidade e obediência), comuns a todos os institutos religiosos da Igreja, um quarto voto particular dos mercedários: caso não fosse possível resgatar um escravo de outro jeito, o membro da Ordem estaria obrigado a entregar sua própria vida pelo resgate do cativo. Foi a primeira vez na história que uma congregação criou um voto particular.

Hoje, os mercedários estão espalhados por todo o mundo e honram nos altares com muito gosto o seu fundador. Permanecem inclusive com seu quarto voto especial.  Enfrentam, no entanto, um grande desafio: atualizar o carisma da Ordem das Mercês às necessidades contemporâneas, já que, salvo raríssimos casos em África e no Oriente Médio, não há mais cristãos escravizados por sua fé. Neste sentido, a bela intuição dos mercedários tem sido atuar no combate de outras formas de escravidão, tão fortes em nosso tempo e igualmente danosas à fé, como a prostituição e o tráfico de pessoas.

        Interessou-se pela nobre vida deste santo e o seu carisma espiritual? Pois agora o Camponês lhe indica dois textos excepcionais para se aprofundar no tema.

1 – “O egoísmo vencido, ou A vida de São Pedro Nolasco” – Santo Antônio Maria Claret

        Fundador da Congregação dos Filhos do Imaculado Coração de Maria, mais conhecidos como claretianos (e que são responsáveis no Brasil pela edição da bíblia Ave Maria), Santo Antônio Maria Claret (1807 – 1870) escreveu inúmeros livros de teor espiritual. Um destes foi uma pequena e bela biografia do fundador dos mercedários. O livro estrutura-se assim: na primeira metade, há uma descrição sumária dos principais fatos e momentos da vida de São Pedro Nolasco; na segunda, São Claret retira as lições e os frutos que esta vida nos enseja.

        Sobre o nome do livro, o próprio autor esclarece no prólogo: “Nós nos encontramos, infelizmente, num século de egoísmo e de indiferença; de egoísmo com respeito ao próximo e de indiferentismo com respeito a Deus. Por isso pensei que, para preservar-te destes males, não poderia apresentar-te matéria mais oportuna que a vida de São Pedro Nolasco”. Trata-se, sem dúvida, da melhor introdução possível ao tema.

        Link do livro: https://confrariadesaojoaobatista.blogspot.com/2010/10/o-egoismo-vencido-ou-vida-de-sao-pedro.html

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Autobiografia: Santo Antônio Maria Claret
  • Santo Antônio Maria Claret
  • Publisher: Editora Ave-Maria
  • Edition no. 1 (01/09/2008)
  • Capa comum: 640 pages

2 – “Sermão de São Pedro Nolasco” – Padre Antônio Vieira

        Maior pregador do Barroco brasileiro (talvez do Barroco em geral), chamado por Fernando Pessoa de “Imperador da língua portuguesa”, Antônio Vieira (1608 – 1697) é dono de um estilo inconfundível. Seus sermões, verdadeiras pérolas da Tradição católica, têm com frequência um forte um teor polêmico. E não é diferente aqui.

        Chamado para pregar no dia de dedicação da igreja de Nossa Senhora das Mercês, em São Luís do Maranhão, verdadeiro marco da chegado dos mercedários no Brasil, o Padre Vieira fez uma breve, mas acachapante meditação sobre a vida do santo libertador de escravos, comparando-a à de seu onomástico, São Pedro Apóstolo. Mais radicalmente ainda, o grande pregador sustenta que a Ordem das Mercês é, por seu carisma, e em especial por seu quarto voto, a maior e mais nobre de todas as congregações religiosas católicas, incluindo a sua própria, já que Vieira era jesuíta: “E que vantagem é esta? Que pela perfeição e excelência deste quarto voto – e mais, não é atrevimento – excede esta religiosíssima religião a todas as outras religiões da Igreja”. Em defesa da surpreendente tese, cita o orador a palavra dos papas Calixto III e Urbano VIII.

        Link do texto: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=49846#_ftn1   

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Essencial padre Antônio Vieira: o que o turista deve ver
  • Padre Antônio Vieira
  • Publisher: Penguin
  • Edition no. 1 (09/30/2011)
  • Capa comum: 760 pages

Imagem: “A Última Comunhão de São Pedro Nolasco”, Francisco Pacheco (1564-1654), 1611. 

* Pedro Ribeiro é professor de Filosofia

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