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Dom Quixote (Murilo Mendes)

Bernanos é um homem irritante, como todos os profetas. Profeta não é só quem prevê o futuro; é quem diz as cousas como são, na exata, sem rodeios nem farisaísmos. Irritante também, muitas vezes, deve ter sido o próprio Cristo. “Esta palavra é dura, e quem a pode ouvir?” Assim se mostra o profeta, aquele que traz a Palavra e a usa corn sinceridade, unção e clarividência: irritante. Esse homem dominou todos os monstros do subconsciente ; conjugou a fé e a razão, confundindo-as ; diz sim, sim ; não, não, porque atingiu a unidade fundamental do ser e assim pode ajudar a transfiguração do mundo. Esse homem vive verdadeiramente o seu batismo, porque renunciou ao demônio e às pampas e seduções deste mundo; e tornou-se consciente, into ciente corn o Cristo, sepultado corn o Cristo, formado corn o Cristo, pregado na cruz corn o Cristo, em divergência com o Príncipe deste mundo, que procura vencer temporalmente corn as armas da iniquidade, do dolo, da exploração dos pobres, e da crueldade

(***).

O demônio está  presente na obra de Bernanos, como está presente no mundo. Não está só na atmosfera que rodeia os personagens: está instalado na alma deles, e trata-se de expulsá-lo. A luta do romancista, do polemista, do exilado, do jornalista, do conversador, do amigo Bernanos, é sempre a mesma luta contra as manifestações do demônio, do espírito do demônio, da ação, não invisível, mas bem visível, do demônio, no plano natural, sentimental, político, técnico, econômico. O demônio é urn ente político por excelência. Desde a mais antiga tradição do homers, que é sua vida relacional com Deus no paraíso terrestre, produziu-se a ação solerte e sinuosa do demônio, minando a construção da primeira cidade humana, da primeira comunidade política, que foi a primeira família humana. E serviu-se de meios essencialmente políticos, de grande atualidade, de meios até fascistas: prometeu ao primeira ser humano a igualdade corn o Ser absoluto; prometeu investir nossos primeiros pais na qualidade de chefes supremos, prometeu-lhes a posse da ciência, alterando desta forma o equilíbrio da criação. Na verdade, existem dois espíritos totalitários: o espírito de Deus, encarnado no Cristo, portador da totalidade do bem; e o espírito do demônio, portador da totalidade do mal.

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Essa luta permanente contra o demônio, manifestado, repetimos, em todos os planos da vida individual e social, tornou-se a grande empresa do quixotesco Georges Bernanos, descendente de urn pirata espanhol (eis aí um trabalho interessante, que propomos a urn teólogo corn gosto literário: a exegese do demonismo em “Dom Quixote”, livro transcendente). Bernanos vive a esgrimir corn o demônio, por isso está sempre alerta e vigilante. Daí esses perpétuos “moulinets” que percebemos na sua palestra, daí sua agitação de profeta que não quer outra coisa senão clarificar o ambiente, para que o Senhor possa entrar. Ele deve enfrentar adversários que se mostram de todos os lados, que chegam de todos os pontos do horizonte; e o elmo de mambrino não é a bacia do barbeiro; de fato ele traz o elmo de mambrino na cabeça, e no peito a couraça da sinceridade e da justiça. Ele sabe que o demônio começou por aninhar-se na casa do Senhor, por isso nao teme denunciar sua ação sibilina onde ela se manifeste, não hesitando em apontar a Secretaria de Estado do Vaticano, as Congregações e as antecâmaras de certas Eminências. Ataca e persegue o monstro totalitário onde ele estiver. Tern que ser exagerado, porque seu inimigo também o é. Não pode descansar, porque seu inimigo tam bern nao descansa. Tern que ser exigente e não conformista, porque seu mestre o é.

Revista A Ordem, Outubro de 1946 — 53

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