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É Possível Curar o Narcisismo?

Tradução: Pedro Almendra

A.

“Meu caro Alone*: eu leio as suas descrições do narcisismo, e elas parecem falar de mim. Temo ser um narcisista. É exatamente como descreveu: ao contrário dos outros, eu não consigo ter conexões profundas com outras pessoas, e, quando eu tento ter,  sempre me soa falso como um roteiro. Os outros parecem ter emoções legítimas, seja a felicidade, o amor, a raiva, ou a culpa;  quanto a mim parece  que sempre estou fingindo, nem que só de leve.”

Diz o narcisismo: Minha situação é diferente. Eu não sou como os outros: os meros autômatos tateando pelo limbo.

B.

“Por que você é tão obcecado pelo narcisismo?”

Descreva a marcha da história nos últimos 100 anos. Resposta: fascismo, depois marxismo, e agora o narcisismo.

O que diferencia uma da outra? Tecnologia.

O que veio depois do fascismo? Guerra. O que veio depois do marxismo? Guerra.

C.

“Mas eu quero mudar, eu quero me tornar melhor.”

Diz o narcisismo: eu, mim. Nunca: você, eles.

Ninguém nunca me escreve: “Eu acho que sou um narcisista e temo estar fazendo mal a minha família”. Ninguém nunca me escreve : “ Eu acho que sou muito controlador, que estou sutilmente tentando manipular minha namorada para que ela não perceba as virtudes dos outros”. Ninguém nunca, jamais, me escreve: “ Eufrequentemente sou consumido por uma raiva irracional, eu sou incapaz de sentir culpa, sinto apenas vergonha, e, quando sou descoberto, desvendado, exposto, tento rebaixar aqueles que me cercam para que eles se sintam piores do que eu; para que eles se tornem tão miseráveis que não consigam me olhar de cima para baixo.”

Se alguém me perguntasse algo assim, eu lhe diria que a mudança é alcançável. No entanto…

D.

“Então, tudo está perdido?”

Descreva a si mesmo: seus traços, suas qualidades; tanto as boas como as más.

Não use a palavra “sou”.

Pratique.

I.

Ao invés de perguntar “por que eu me sinto desconectado?”, faça a pergunta inversa: “o que eu iria sentir se eu não estivesse desconectado?” Seja específico, diga a resposta em voz alta.

Vá em frente, tire seu tempo, pense nisso. O que é estar conectado? Eu espero.

Deixe-me adivinhar: você não faz a menor ideia.

Tudo que você tem por resposta são imagens, pensamentos soltos. Nada concreto. Umas palavras, umas frases; fragmenos de conversas que você pode ter tanto ouvido como sonhado.

Agora pergunte a si mesmo: de onde você tirou essas imagens e frases?

Imagine duas pessoas, reais, ou de filmes, apaixonadas. Pegue duas pessoas cujo amor você gostaria de emular. Imagine-as se beijando, olhando uma no olho da outra. Imagine-as fazendo amor.

Você queria ter um amor como o delas, mas você não tem, e toda vez que  tenta obtê-lo, ele se revela um fiasco. Eis a razão: você imaginou pessoas de verdade ou personagens de TV?

II.

Os anos 1980 disseram: “a TV é uma má influência, está levando nossas crianças para o caminho errado”. Ora, é claro. É a primeira lei de Newton: um corpo se move na direção de uma força, a menos que seja contrariado por outra força.

Mas onde as crianças iriam aprender sobre o amor? Elas podiam aprender pela TV, ou podiam aprender com a geração de adultos com a maior taxa de divórcios da história. Elas podiam aprender sobre as dificuldades de criar os filhos com um especial da Globo/Disney, ou com a geração de adultos com o menor número de filhos da história. Eles podiam aprender sobre a moralidade com a Vila Sésamo, ou… Bem, o papai nunca se esqueceu de pagar a parte da Sky.

Os pais não têm tempo para nenhuma dessas lições. Então, ao invés de se comportarem como pais, eles se preocupam com o excesso de sexo na TV, supondo que isso vai tornar todo mundo safado. Bem, nada disso aconteceu. E olha que eu verifiquei muito bem, por entre os vinte e os trinta anos. O que aconteceu foi o seguinte:  uma geração de homens começou, descaradamente, sem vergonha alguma, a procurar mulheres safadas, e uma geração de mulheres começou a fingir-se de safada. Pense bem nisso: elas fingem ser mais safadas do que são, e não mais puras do que são.

Os pais estavam certos: a TV pode influenciar as crianças. Porém não da maneira como esperavam.

Mas pera lá: pode a TV ser tão poderosa assim? Não, é claro que não. Mas de quanto poder você realmente precisa para empurrar uma criança, num casaquinho de polyester, em uma fossa no meio da rua?

Perguntam-me: “por que você foca em cultura pop?” Ora, porque é a única cultura a que 300 milhões de americanos tiveram acesso por mais de 30 anos.

III.

“Imprinting” foi famosamente definido por Konrad Lorenz, que teve um bando de gansos seguindo-o, comportando-se como ele, apaixonados por ele. Um fato menos conhecido: ele só precisou de 48 horas para alterar suas identidades por completo.

Tudo isso sem o uso da TV.

IV.

E agora? A TV te ensinou como amar, te mostrou com oque o amor se parece, e como ele é sentido. Mas, quando você realmente está amando, sua experiência em nada se parece com aquilo, daí você secretamente começa a suspeitar que não possui a capacidade de amar,  que há algo errado com você.

O mesmo se dá com a tristeza. E fica pior quando você está na presença da tristeza alheia; você não faz a menor ideia do que fazer. Tudo que você realmente sabe sobre sentir essas emoções está no roteiro que aprendeu com a TV. “Oh, seu marido morreu!? Meu Deus, isso é terrível! Eu sinto tanta pena de você!!” Mas você não sente nada disso. Nadinha.

Então pense consigo mesmo: O que raios há de errado comigo? O marido dessa mulher morreu— certo que eu posso fingir— mas seria eu um monstro tão vazio assim, incapaz de sentir qualquer coisa?

É claro que você não sente nada. Por que iria sentir? A perda não é sua. O que está errado não é sua falta de sentimento, mas o fato de você achar que tem a obrigação de sentir alguma coisa, que você tem de dizer algo a essa mulher, que você tem de lembrá-la do quão horrível foi a sua perda.  Você acha que a única maneira de se conectar com uma pessoa é sentindo a emoção dela. Você acha que ela quer se conectar com você; que ela quer a sua ajuda.

O problema não é a sua falta de sentimento, mas sim o fato de você presumir que tudo o que você não sente é falso.. Você se esqueceu de que ela tem uma vida na qual você não está incluído.

O que você deveria dizer é: “Sinto muito em ouvir isso. Tem algo que eu possa fazer para ajudar?” E só. Mas isso lhe parece insuficiente. E você pensa isso porque supõe que há algo para você fazer, que se a tristeza não é real para você, não deve ser real para ela também, e que sóvocê, pois, possui o poder de mudar tudo.

Ela não quer que você esteja triste, ela não quer você para nada, a perda dela é maior do que você. Se ela precisa de algo vindo de você, é simpatia, não empatia

Mas ninguém te ensinou isso. Então você encarna o personagem “homem ajuda mulher em luto”. Ação!

O problema não é que você não saiba como se conectar; é que, quando você se conecta de algum modo, você não faz ideia do que fazer em seguida. O problema são suas expectativas irreais sobre como a conexão deveria ser.
A TV sempre trata de começos e nunca dos meios. Como o amor. O amor que você sente não se assemelha ao da TV porque o amor da TV são os primeiros três dias de amor, copiados e colados em uma década de episódios. Mas como você não tem nenhum outro ponto de referência, depois de passada uma verdadeira década, você pensa, “então eu acho que não estou mais apaixonado”.

Você é tão incerto da própria identidade que não sabe se deve sentir algo, o que você deve sentir e quando você deve sentir. É o mesmo problema que atores têm quando ensaiam um personagem. Eles querem que saia tudo perfeito: “Será que Tom iria sentir isso?”, “Qual é a sua motivação?”. Da mesma forma, você pergunta: “Será que eu— a pessoa que eu estou fingindo ser— deveria sentir isso?”

V.

Narcisismo é imitar como uma forma de vida. É atuar o tempo todo.

VI.

O problema não era a TV, o problema era a ausência de adultos, de adultos reais que levassem a sério suas responsabilidades para com a geração seguinte, que se guiassem não por palavras, mas por comportamentos. Adultos que, mesmo infelizes, incompletos ou desconectados, tivessem a decência de fingir para a geração seguinte, para as pessoas que eles viriam a influenciar. Que não traíssem suas esposas, não apenas porque as amassem, ou porque achassem errado, mas porque “que tipo de exemplo eu darei para nossas filhas?”

Eu sei, todo mundo vai discordar de mim. Todo mundo, exceto as filhas com menos de 20 anos.

VII.

Eu matei um mosquito ontem, porque ele me bicou e doeu, e eu não sou o Dalai-Lama.

O narcisista, por sua vez, diz: “é apenas um mosquito.”

VIII.

“Sinto que estou interpretando um papel, que estou em uma peça. Nada disso parece real.”

Ao invés de tentar parar de interpretar um papel— um que se destina à sua felicidade—, tente interpretar um papel diferente um papel cujo destino é a felicidade de outro. Por que não interpretar o papel do pai feliz de três crianças? Por que não fingir ser dedicado à sua família a despeito de outras coisas? Por que não interpretar o papel do homem que não é tentado a dormir com a atendente do bar do aeroporto?

“Mas isso é desonesto, eu estaria mentindo para mim mesmo.” Seus filhos não vão saber e nem vão perguntar. Então, e daí?

O narcisista demanda perfeição em tudo que lhe diz respeito.

IX.

“Mas eu tive ótimos pais!”

Foi mal aí, Leônidas, mas você é minoria.

E o melhor dos pais não pode superar a imponente influência de todo o restante, dos pais de todo o restante, da TV, do jornalismo;da cultura que diz, “Ora, é claro! As ideias antigas estavam erradas, nós sabemos muito mais agora! Nós pontuamos as últimas páginas da história! De agora em diante tudo mudou!!”

Dezoito anos da melhor das criações ainda não é o suficiente para vencer as lições de moral que um sitcom dos anos 1980 te apresentou como se fossem uma verdade fundamental, aceita por todos, inquestionável.

Então, o que dizer da nova geração, a que está abaixo dos 25? Se o problema era a influência imponente da TV — não a TV em si, mas a falta de influência contrária—, então a solução é uma influência contrária.

Eu tenho receio de recomendar os “clássicos” porque soa falso e pretensioso, mas qualquer coisa que tenha sobrevivido ao teste do tempo, e que não tenha sido criada para o consumo dos atuais adultos narcisistas,é um bom lugar para começar.

Faça o contrário do que os narcisistas fizeram. Eles queriam saber o suficiente para alimentar a farsa. Eles leem apenas o suficiente para que os livros formem uma identidade; daí que leem sobre os livros, mas não os livros em si.

No mais, pelo menos a leitura vai te manter fora de problema: cada momento lendo esses livros é um momento a menos fazendo aquilo que os adutos de hoje criaram para eles mesmos e que acabou sobrando para você.

X.

“Por que você perde seu tempo com a cultura pop?” Porque mesmo que você não se interesse por cultura pop, ela está interessada em você.

Texto original: https://thelastpsychiatrist.com/2009/01/can_narcissism_be_cured.html

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