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Elogio a Jacques Maritain

Pedro Ribeiro*

 

Há exatamente 45 anos e 10 dias atrás, falecia como um simples e modesto membro dos Irmãozinhos de Jesus aquele que se definia como “um agente secreto do Rei dos reis nos territórios do Príncipe deste mundo”, o mais influente, mas também o mais injustiçado dos filósofos católicos do século passado: Jacques Maritain.

Militante socialista e niilista agnóstico quase-suicida antes da conversão, Maritain teve uma vida agitada e intensa como a de poucos. Quando jovem aluno e discípulo de Bergson (cujas aulas o demoveram do suicídio), tornou-se mais tarde um duríssimo, ainda que sempre respeitoso e admirado, crítico da filosofia bergsoniana. Convertido à fé católica sob influência de Charles Péguy e Leon Bloy (este, seu padrinho de batismo), foi um dos maiores protagonistas do grande processo de renovação espiritual pelo qual o catolicismo passou no século XX e que culminou no Concílio Vaticano II; no Concílio, aliás, teve certamente muito mais influência do que muitos Padres Conciliares, os quais, inclusive, o homenagearam publicamente na última sessão (honra a qual, creio, nenhum outro leigo possui na história da Igreja). Nem, por isso, porém, deixou de denunciar – e denunciou duramente em “O Camponês do Garona” – o caos instalado na Igreja imediatamente no pós-Concílio, caos cheio, segundo ele, de padres que não fazem mais visitação eucarística e de admiradores de Teilhard de Chardin, cuja teologia abominava. Simpático à hiper-nacionalista Ação Francesa de Maurras nos anos 20, passou a ser nos 30 o pai teórico da democracia cristã, influenciando decisivamente o desenvolvimento posterior de todo o pensamento social católico e tendo inclusive o seu conceito de humanismo integral sido explicitamente acolhido pelo Magistério (outra glória bastante particular) no recente Compêndio de Doutrinal Social da Igreja. Homem da Igreja e do mundo, foi um dos redatores da Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão da ONU, mas também, ao que tudo indica, o autor e criador do último credo universal oficial da Igreja, o Credo do Povo de Deus, oficialmente foi redigido por Paulo VI, seu amigo pessoal. Homem de oração e trabalho, escreveu inúmeros livros, discutiu com socialistas e liberais, debateu com René Guenon e, parece, até com Einstein; mas foi também responsável pela conversão de inúmeros artistas e intelectuais (o caso mais famoso é Thomas Merton), sobretudo nos inúmeros retiros realizados em sua casa em Meudon. Sem filhos (ele e a esposa não tinham fertilidade), foi enormemente fecundo em termos espirituais: inteiramente apaixonado por sua bela Raíssa, que conheceu ainda agnóstico e socialista (ambos quase suicidaram juntos), dizia que foi com ela que aprendeu a rezar.

Este é Maritain. Seu nome hoje fica entre o esquecimento (maldição que sempre pesa sobre autores excessivamente populares em vida) e as acusações daqueles que dizem ter corrompido a fé e sobretudo a filosofia tomista – Maritain, afinal, tornou-se poucos anos depois da conversão e até o fim da vida um decidido defensor da filosofia de Santo Tomás de Aquino.

De minha parte, que posso dizer – eu, que tenho em Maritain o autor que mais li na vida; eu, que tenho com ele afinidades espirituais enormes; eu, que tenho em sua leitura um dos meus maiores prazeres, mesmo quando eventualmente discordo das ideias? O que digo é que Maritain errou sim, muitas vezes, e que estou pronto a admiti-lo, mas que seu legado é muito maior e mais belo do que seus erros. Mais: digo sem pestanejar que é mais atual do que nunca a exigência maritainiana de se abandonar o “tomismo arqueológico” e se cultivar um “tomismo vivo”, fiel, sim, aos princípios fundamentais e verdadeiros que se encontram no Aquinate, mas sem medo de enfrentar as novas problemáticas, de crescer, de se reformar. Mais do que nunca são hoje verdadeiros a duras e repetidas invectivas de Maritain contra os tomistas “que tornaram Santo Tomás a polícia da Igreja”.

Paulo VI o chamou de mestre da vida de oração, João Paulo II o apresentou em “Fides et Ratio” como modelo de filósofo que soube unir fé e razão, Padre Ávila e Eduardo Frei (este que, inclusive, se assumia sempre muito cético no que diz respeito a famas de santidade) afirmavam que o mero contato pessoal com Maritain já possuía uma aura diferente e dava a serena certeza de se estar diante de um santo.

Seu processo de canonização, que é conjunto ao de Raíssa, ainda está no começo na Santa Sé. Mas eu, confesso, por vezes vou dormir serenamente rezando “São Jacques Maritain, rogai por nós”. E se acalma meu coração.

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* Pedro Ribeiro é graduado em filosofia pela UERJ e trabalha como professor da disciplina nos âmbitos do Ensino Médio e de pré-vestibular.

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