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Entrevista com Bernardo Souto

Por Igor Barbosa e Sérgio Souza

O Poeta Bernardo Souto é uma voz brasileira. Vive no sertão ensinando – e vivendo de ensinar; suponho que ensine muito bem, mas não vive tão bem quanto merece. Ele vive no sertão como o Brasil sobrevive no sertão, onde ainda não têm tanto acolhimento as bobajadas que nos chegam dos mais barulhentos e desonestos centrinhos de produção de modas. Não há tempo a perder onde há uma vida ainda por ganhar, e a poesia de Bernardo Souto toda tem este quê de esforço por sobreviver. Dela, podemos dizer o que Euclides da Cunha diz do sertanejo:

“A seca não o apavora. É um complemento à sua vida tormentosa, emoldurando-a em cenários tremendos. Enfrenta-a, estóico. Apesar das dolorosas tradições que conhece através de um sem-número de terríveis episódios, alimenta a todo o transe esperanças de uma resistência impossível. (…) Procura em seguida desvendar o futuro. Volve o olhar para as alturas; atenta longamente nos quadrantes; e perquire os traços mais fugitivos das paisagens.”

Entrevistar este poeta não teve nada da luta do homem do sertão, que no começo do século passado batalhava contra a natureza em suas horas áridas. Bernardo Souto foi pronto em nos atender e solícito nas respostas, ensinando não como quem dita, mas como quem partilha, e partilhando generosamente como quem muito possui. A sua aridez, de muitas horas passadas em atenção ao ciclo de crepúsculos da religião, filosofia e das artes, é expressão de uma alma que quer algo a mais, e para o que a sua poesia aponta com imensa constância. Para nossa sorte.

Sergio de Souza — Você concluiu seu “A Aridez das Horas”  e irá lançá-lo em 2019. Você publicou o poema que dá título ao volume na sua página do Facebook e disse que é uma espécie de poema-síntese, que resume o espírito do livro. Sabemos que você, caro poeta, é um “exilado” no sertão. Segundo o seu belíssimo poema: “Tão somente no Sertão / Eu sinto profundamente / O peso desconcertante / Dessa aridez que há nas horas.”

Por que você escolheu o sertão para viver? Você é um poeta sertanejo? E que relação “mística” é essa que há entre o sertão e sua poesia?

Em primeiro lugar, gostaria de agradecer a oportunidade de colaborar com o excelente site O Camponês, que há anos é referência para os católicos de todo o Brasil.

Moro no sertão devido a um capricho do destino, embora eu sempre tenha nutrido muito carinho pelo interior do Brasil. Por questões político-ideológicas, as portas foram se fechando para mim no Recife – cidade em que nasci e onde morei até o início de 2015 –. Então, há quatro anos, prestei um concurso para ensinar numa faculdade de Araripina, cidade localizada no sertão pernambucano, e passei. No início, a adaptação foi difícil, sobretudo devido ao isolamento. Mas hoje já me sinto mais aclimatado à cidade sertaneja em que vivo, embora sinta saudades do Recife (muito mais das pessoas do que da cidade per se). Ainda que a oferta de serviços na capital seja infinitamente maior, uma coisa que me encanta no sertão é a solidariedade do povo. Aqui, por incrível que pareça, o cristianismo ainda é muito forte.

Creio que o sertão, por ser uma espécie de ilha que nutre a solidão e por possuir tudo que é “sinônimo de míngua”, pra usar as palavras de João Cabral de Melo Neto, fez-me enxergar com maior clareza o que é essencial na vida. Como bem disse o grande Bento XVI, “o homem só se torna maduro quando enfrenta a própria solidão”.

Igor Barbosa  — Você experimenta alguma tensão entre o impulso criador e suas convicções pessoais? Como as resolve?

Sim, meu caro confrade. Experimento, sim. Para mim, que no fundo sou um filho tardio do Romantismo, a criação poética está diretamente ligada à ‘verdade sentimental’. E nem sempre a ‘verdade sentimental’ anda de mãos dadas com a ‘verdade racional’, por assim dizer. Como as resolvo? Em verdade, não as resolvo por completo. Mas, quando escrevo poemas, sempre deixo a dimensão estética falar mais alto, ainda que alguma ideia expressada no poema incomode um pouco a minha consciência. Então, a fim de me consolar, sempre me lembro do que disse o Oscar Wilde, no prefácio de O Retrato de Dorian Gray: “Não há livros morais e livros imorais. Há livros bem escritos e livros mal escritos, e isto é tudo”.

Sergio de Souza — Quais são as suas grandes influências como poeta?

Comecei a gostar de poesia lendo Augusto dos Anjos e Alphonsus de Guimaraens, com doze ou treze anos de idade. Mas minha primeira grande influência foi Manuel Bandeira, que me ensinou que o poema deve sempre nos comover. Com Rilke aprendi que as melhores poesias, de uma maneira geral, focam-se nas coisas grandes e graves – coisa que Aristóteles, aliás, já havia percebido –. E também fui muito influenciado pelo Ângelo Monteiro, com quem confirmei e aprofundei a ideia de que o mistério é um dos fatores mais importantes na poesia lírica.

Igor Barbosa — Para onde você espera que a poesia aponte suas armas no futuro próximo?

O que eu espero é que os poetas saibam enxergar o que há de intemporal, de perene no nosso tempo, seja no uso da linguagem, seja na escolha dos temas. Que os poetas saibam enxergar o que há de vivo e de significativo no passado, sem que com isso precisem fechar os olhos à nossa época. Creio que a nossa geração está tentando, e talvez conseguindo, realizar esse difícil amálgama.

Sergio de Souza — Há uma nova geração de poetas, especialmente entre os nascidos no ambiente conservador e de direita, que se assumem como adeptos das formas fixas, especialmente dos sonetos. Não é segredo para ninguém, que, embora você passeie com tranquilidade também pelas formas fixas, de maneira geral, escolhe o verso livre. Ainda assim, você se sente parte desta geração? Acha que há uma similaridade de espírito entre esses poetas? E o que acha quando essa aderência às formas transforma-se numa fixação, numa espécie de fetiche?

Sempre gostei muito de sonetos. Mesmo nos dias de hoje, temos poetas que honram o molde petrarquiano: Igor Barbosa, Emmanuel Santiago, João Filho, Wladimir Saldanha, Marra Signoreli, Wagner Schadeck, Silvério Duque, Carlos Heinig, Pedro Mohallem, Ivanes Freitas, José Lima e mais cinco ou seis, cujos nomes desgraçadamente não vou lembrar.

Uma coisa que nunca aprovei, no entanto, é o fetichismo do soneto, espécie de cacoete que nasce de uma visão completamente equivocada do que é tradição. Em geral, os fetichistas não compreendem que a tradição é sempre dinâmica, e, por isso mesmo, não conseguem perceber a verdade profunda das palavras do Apóstolo: “A letra mata, mas o espírito vivifica”. E, agindo assim, se apegam demasiadamente à forma, como se a Poesia, que vem do grego ποίησις, não fosse sobretudo CRIAÇÃO IMAGINATIVA, como bem percebeu Platão, no ‘Fedro’.

Quando tal erro chega ao paroxismo, os fetichistas chegam mesmo a valorizar mais poetas menores, tais como Gonçalves Crespo ou Martins Fontes – pelo simples fato de terem sido sonetistas – do que gigantes da poesia ocidental que escreveram versos livres muito mais ligados ao espírito da verdadeira Tradição, tal como o T. S. Eliot, por exemplo. Em suma, acabam valorizando mais a ‘letra’ (que seria a forma) do que o espírito (que equivale às camadas mais profundas de significação do poema).

No fundo, como eu já disse várias vezes, trata-se de uma noção rasa e mal assimilada do que significa Tradição. “Tradição não é o culto às cinzas, mas a preservação do fogo”, como certa vez disse o compositor checo-austríaco Gustav Mahler.

Igor Barbosa — O artista tem alguma obrigação com a sociedade ou com seu público? Quais seriam?

Creio que as únicas obrigações do artista são estudar muito e ser profundamente sincero. O artista jamais deve produzir arte com o objetivo de agradar o público ou a crítica, sob pena de estar traindo suas convicções mais íntimas em nome da fama.

Sergio de Souza — Esta pergunta tem um link com a anterior.  O alimento do artista –  A Beleza, os Mitos, os Símbolos, o Sagrado, os Sonhos, a Fantasia, a Imaginação, a própria Arte? – é o mesmo alimento de que o povo necessita?

Sim. A arte é uma das maneiras mais eficientes de facilitar o acesso à  transcendência: não é à toa que todas as grandes religiões fazem uso dela. Em meio a uma época tão materialista, tão utilitarista, tão presa ao imanentismo político e ao pragmatismo, a arte devolve às pessoa o direito de sonhar.

Sérgio de Souza — Você acha que com a eleição de Bolsonaro e a suposta ascensão de um cultura que guarda valores mais tradicionais e conservadores, acontecerá algo com a poesia (mais concretamente, com os autores e publicações) no Brasil ou você é um grande cético sobre estas questões?

Creio que a tendência é que esses valores mais tradicionais ganhem força, sim. Mas o problema é que, como disse o Ângelo Monteiro, “a poesia não faz parte da cultura brasileira”. Talvez o grande poeta, a fim de dar maior ênfase à ideia, tenha sido um pouco hiperbólico. Mesmo assim, é bastante notório que ler poemas não é um hábito nem mesmo entre as pessoas mais cultas. Neste sentido, é bastante elucidativo o comentário feito pelo poeta Alberto da Cunha Melo: “Conversando com meu amigo, o sociólogo Pedro Vicente Costa Sobrinho, que dirige editoras desde a juventude, ele me informou que ‘a poesia tem-se tornado uma arte marginal no mercado editor: os livros de poesia, ou são publicados por iniciativa do próprio poeta ou com o apoio de órgãos públicos’. Cada vez mais me convenço de que estou certo quando digo, nas entrevistas, que a poesia é uma antimercadoria”.  Para quem escreve poemas, essa realidade causa uma tristeza imensa.

Poemas de Bernardo Souto:

 

A EMILY DICKINSON
.

Falenas feitas de silêncio
Voaram de encontro aos meus olhos –
Perplexas, recuaram
Ao notarem que não choro.

Meu pranto é o das estátuas,
Meu calendário não tem datas:
É na Penumbra que moro.

 

ANDARILHO DO DESERTO

As coisas que abracei ardentemente,
As coisas que abracei, perdi-as todas…
À maneira do pássaro que pousa
À sombra da alameda inexistente.

Perdi o bem passado e o bem presente:
O sopro divinal que anima as cousas
Extinguiu-se tal qual a mariposa
Que voa rumo ao bosque incandescente.

Tornei-me um andarilho do deserto,
Sem lar nem norte, que não sabe ao certo
Onde acaba o mal e começa o bem.

Por ora, vou cumprindo o meu destino —
Até que soe o derradeiro sino
E Deus Pai me conduza para o Além.

 

A ARIDEZ DAS HORAS
.

O pôr-do-sol sertanejo
Me aniquila e me devora.
Uma espécie de orfandade
Inunda toda a minh’alma
Quando a tarde vai embora.

Tão-somente no Sertão
Eu sinto profundamente
O peso desconcertante
Dessa aridez que há nas horas.

 

Compre o livro O CORVO E O COLIBRI, de Bernardo Souto.

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