fbpx

Entrevista com Carlos Ramalhete

Carlos Ramalhete é um dos catequistas do Brasil. Do primeiros leigos a utilizar a internet como meio de evangelização e catequese, é professor de Filosofia, Sociologia e Música, escritor e tradutor. Também mantém uma coluna na Gazeta do Povo. Ramalhete, que publicou recentemente, pela Editora Quadrante, uma Manual de Doutrina Social da Igreja, nos concedeu esta breve entrevista de muito bom grado, em que fala sobre suas influências literárias, filosofia e, claro, política e DSI. Aproveitem!

Quais as suas maiores influências como escritor?

Chesterton, evidentemente, e Corção. Estes são os que estão em primeiríssimo lugar por escreverem mais ou menos como quero eu mesmo escrever quando crescer. Em segundo, pela beleza do texto, Machado de Assis e o grande Castro Alves. Em seguida, um grande amálgama de escritores de ficção “ruins” em várias línguas, dentre os quais posso citar Dumas pai, Walter M. Miller Jr., Veríssimo pai e filho, e toda raça de escritores policiais, de Frédéric Dard a Agatha Christie, passando por Conan Doyle, Chandler, Hammett, Spillane, Stephen King, Tom Clancy, etc. Tenho 20m de estantes de ficção, e o grosso é besteira como estas. Gosto muito de “subliteratura”, por deixar de lado os preciosismos linguísticos e ir direto à arte de contar histórias. Os escritores americanos, especialmente, têm a arte de usar a dinamicidade da língua inglesa de maneira inimitável em português. Já um Corção ou Machado dão as “roupas” com que se pode revestir a estrutura narrativa (ou explicativa; confesso que para mim dissertação e narrativa são no fundo a mesma coisa), a lógica da coisa. Já como influência negativa, como coisa que quero evitar, estão os Ginsberg da vida, gente que confunde datilografia com escrita, e os preciosistas chatos como José de Alencar.

O senhor fez filosofia na UCP. Qual sua avaliação da cena filosófica católica no Brasil?

Ela é quase inexistente. Para piorar, os poucos que aparecem por aí são, no mais das vezes, meros explicadores de filosofia moderna. E eu não suporto filosofia moderna; um amigo costumava dizer que em qualquer filosofia moderna chega-se a um momento em que o autor diz-se Deus, atribuindo a si mesmo algum atributo exclusivo da Divindade (ser em si, ser ato puro, etc.). Eu até reconheço a boa vontade desse povo, mas a meu ver é uma tarefa impossível conciliar filosofia moderna e catolicismo. Mas talvez seja eu o chato.

E no meio dos tomistas, o que mais vejo é gente que trata a filosofia de São Tomás como quem tem uma Ferrari na garagem e a liga uma vez por semana para a bateria não arriar, mas nunca sai à rua com ela. Eu acredito em filosofia aplicada, em filosofia na vida, em filosofia que não só se vive, como que pauta e ilumina o modo como se o faz. Um “tomismo” de laboratório não é filosofia. Um “tomismo” que não está em ação na nossa relação com o Eterno e com o contingente não é filosofia; é – como aliás o é a filosofia moderna – uma espécie de jogo de RPG, de mundo virtual que pode servir de brinquedo ou mesmo masturbação intelectual, com perdão da grosseria, mas que passa longe de ser filosofia. Filosofia de verdade ajuda, literalmente, tirar o carro da lama (fiz isso hoje; meu fisioterapeuta ficou preso na lama da estradinha daqui de casa e o perneta aqui tirou o carro dele de lá, basicamente raciocinando em termos de qüididade e causalidade ao dirigir). Filosofia de verdade orienta o uso da filosofia natural – da física newtoniana à biologia.

Qual a importância de um Manual de DSI para os tempos em que vivemos?

Enorme. Fiquei felicíssimo quando me pediram que escrevesse um. Estamos em uma época complicada, em “tempos interessantes” em que tudo é fluido, em que tudo o que é sólido desmancha-se no ar e desaparece quando é tocado, apenas para ressurgir em outro lugar. Vivemos um tempo em muito semelhante àquele em que viveu Santo Agostinho: um fim de civilização em que não se sabe o que há de vir. Só o que se sabe é que o que há não tem como perdurar. Meus netos não conhecerão – para pegar um exemplo simples – polícia civil e polícia militar. Meus bisnetos dificilmente viverão em um Brasil uno, governado a partir de Brasília.

Num momento como este, é fundamental que se saiba o que dá e o que não dá para fazer, que se use a sabedoria da Igreja para iluminar nossas escolhas, nossas tentativas de escorar isto ou aquilo ou construir alternativas para as coisas que estão em processo de desaparecimento ou simplesmente degradação. Assim como os europeus desmanchavam os palácios vazios da administração romana falida para construir outras coisas, nós temos que usar o que presta do que há por aqui para servir de fincapé na construção de outras coisas novas, que por sua vez devem ser iluminadas pelo que há de Eterno, devem respeitar os limites da natureza humana, etc. Foi pensando nisso que escrevi meu manualzinho de DSI, que espero possa servir a meus descendentes e a seus contemporâneos nesta difícil tarefa.

Numa eleição polarizada com a deste ano, o voto nulo (ou em branco, ou a abstenção), é uma opção legítima, uma forma legítima de participar da política, como afirmado no manual?

Certamente. Na verdade, em uma eleição polarizada como esta, a alternativa de não votar em ninguém pode ser ainda mais importante, sinalizando seja uma negação de reconhecimento de qualquer um dos candidatos como dignos de voto, como até uma recusa de participação no próprio processo. Pode-se não votar (por qualquer um dos meios) para dizer “não acredito em eleições”, “não aceito a República”, “não aceito nenhum destes candidatos”, e por aí vai. Não votar é uma manifestação tão forte quanto votar, ou maior ainda, na medida em que todo o incentivo que há é para que se vote. Mesmo com punições burocráticas (nem falo da multa, que é irrisória, mas do trabalho que dá ter que justificar, durante ou depois das eleições, ou mesmo deslocar-se até a seção eleitoral e encarar fila para marcar um voto nulo ou em branco), mesmo com a dose de ostracismo social que vem de não se participar da polarização em curso, uma enorme quantidade de gente recusou-se a dar seu aval formal a qualquer um dos candidatos. Isto é um sintoma de um sistema doente, e uma forma de protesto perfeitamente legítima.

O que o senhor, dentro dos princípios da DSI pode dizer sobre usura e juros?  É moral o católico ganhar dinheiro com ações, por exemplo?

Resumindo, dinheiro é estéril, mas o trabalho não o é. Assim, é perfeitamente correto se se empresta dinheiro para alguém que vai investi-lo (na abertura de um negócio, por exemplo), retirando-se um lucro se ele vier e perdendo-se-o se o negócio fracassar. Assim se está investindo no trabalho do outro, participando do empreendimento para o bem ou para o mal. Não é moralmente lícito, contudo, emprestar o dinheiro e cobrar juros independentemente do sucesso do investimento da pessoa que o pegou emprestado, como é a praxe dos bancos, por exemplo. Isso seria tratar o dinheiro como se ele, por si, desse frutos. É por isso que é muito bom que no Brasil as dívidas com os bancos caduquem; dificilmente a pessoa não terá já pago até mais que o pegou emprestado quando para de pagar, não tendo mais nenhuma obrigação de fazê-lo se o investimento que fez fracassou. Evidentemente, pegar dinheiro emprestado para besteira – consumo, por exemplo – também é moralmente errado.

Investir em ações, desta forma, é algo perfeitamente legítimo, justamente porque se está participando não só do sucesso, mas também do fracasso eventual do investimento do dinheiro que se dá por elas. A agiotagem, por outro lado, seja ela feita pelo banco ou por um sujeito que quebra as pernas de quem não paga em dia, é pecaminosa.

Em um de seus textos, o senhor defende que a modernidade está no fim. Quais os sinais, e o que o senhor imagina que substituirá a modernidade?

Bom, a modernidade não tinha como durar. A sociedade moderna sobreviveu nestes pouco mais de duzentos anos alimentada basicamente pelo que sobrou da sociedade pré-moderna, especialmente no que diz respeito às bases morais da sociedade. Na verdade, o sucesso da modernidade é o que a leva à própria destruição, por ela ser contrária à natureza humana. Enquanto havia uma moral (cristã) unanimemente aceita pela população, a polícia servia para pegar o raro elemento antissocial e retirá-lo do convívio social. A partir do momento em que a polícia passa a servir para garantir que as pessoas cumpram uma lei em que elas mesmas não acreditam, cria-se uma situação em que a anomia tenta ser vencida por um mecanismo de hipercentralização que não tem como dar certo. Querer que a lei seja o “mínimo moral”, como querem os modernos, é tão antinatural quanto querer tirar os bebês das mães e dá-los a pedagogas. Escrevi sobre isso há pouco em https://www.gazetadopovo.com.br/colunistas/carlos-ramalhete/raizes-da-dignidade-humana/

O que temos na modernidade é uma sociedade – ou antes uma superestrutura que se pretende a sociedade – baseada na fantasia de que a idéia seria superior à realidade, tentando implantar na marra um sistema baseado nessa grande Idéia, tentando cortar e esticar a realidade num leito de Procusto para que ela se adéque à Idéia. Quanto mais se o consegue fazer, menos a sociedade funciona. E é o que temos hoje, com a anomia crescendo proporcionalmente ao aumento do alcance do controle estatal. No interior pode-se falar no telefone na rua; nas capitais, onde há mais polícia, tentar fazê-lo é garantia de ser roubado.

Quanto ao que virá depois, só Deus sabe. Ninguém no Século IV conseguiria imaginar o Medievo. Só o que se pode saber é que há de haver, comparativamente com a situação atual, um retorno a um modo mais natural de organização social. Podemos vir a ter um neotribalismo (previsto pelo Dr. Plínio Corrêa de Oliveira), podemos vir a ter um neofeudalismo (que já pode ser vislumbrado no surgimento de milícias no Rio e em outros lugares), etc. Só o que é garantido que não se tenha mais é o previsto pelos grandes distopistas da modernidade, como Orwell e Huxley. Não é mais possível centralizar tudo, por se já ter chegado ao ponto em que quanto mais se aperta, mais vaza.

Quem acompanha os seus textos percebe que o senhor prima pela qualidade na escrita, pelo estilo. O senhor já escreveu romances. Quais seus ficcionistas prediletos? Pretende voltar a escrever ficção?

Quanto aos ficcionistas, já escrevi na primeira pergunta. Quanto a voltar a escrever ficção, depende. Se eu conseguir publicar o que já escrevi, volto. Se não, não. Por razões de saúde, hoje em dia eu não tenho como escrever tanto quanto eu gostaria. Não aguento ficar muito tempo sentado de enfiada, e isso evidentemente me prejudica muito. Já tentei arranjar um jeito de escrever deitado, mas não consegui. Assim, preciso ter prioridades. Agora, por exemplo, estou trabalhando num livro já contratado com a editora sobre Maio de 68 e suas consequências (que deveria ter sido publicado, claro, em maio de 2018, mas vários problemas o impediram). Depois dele eu tenho alguns outros na fila: uma História eclesiocêntrica da Civilização Ocidental, uma reapresentação da tese de Ivan Illich sobre os problemas da medicina moderna, etc.

Eu tenho um livro de realismo fantástico parado no meio há quase vinte anos, em que Dom Sebastião volta ao Brasil de hoje, e adoraria retomá-lo. Mas é um livro ambicioso demais para ser escrito sem garantia de publicação. Escrever é o meu trabalho, em diversos sentidos. O primeiro deles é que foi este o talento que Deus me deu, e não posso enterrá-lo. Mas também é enterrar o talento escrever para encher a gaveta de livros jamais publicados. O segundo é que sem o dinheiro que ganho vendendo palavras (já dei muito recibo em que a unidade era a palavra…) não tenho como viver. Mais ainda agora, quando por razões de saúde não tenho mais como dar aulas. Sou péssimo comerciante, e nem saberia como fazer para editar e vender um livro por conta própria; dependo de editoras. O romance policial que escrevi foi concebido para ser vendido em bancas de jornal e rodoviárias. É o que eu chamo de “pipocão”, um livro formulaico e (espero) divertido, em que no finalzinho já preparo o caminho para outra história com os mesmos heróis. Mas dá trabalho escrever. Hoje em dia literalmente dói escrever. Se eu não conseguir que uma editora o publique, ou mesmo se ele for publicado e vender pouco, dou outro uso à minha pena.

Link para comprar o livro do professor Carlos Ramalhete: https://www.quadrante.com.br/doutrina-social-da-igreja-uma-introduc-o (Editora Quadrante)

Compartilhe

Deixe uma resposta