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Entrevista com o poeta Igor Barbosa

O poeta Igor Barbosa, no provador de uma loja de roupas.

 

“Mr. Barbosa, yes, we met at Yale, after his amazing lecture on Revelation. He is a clever and funny guy. I would like to ask him, if the god of the Jews allows me living a bit, what is this Revelation about and the reason for his shuddering his waist in such a funny way everytime he mentions this name, Revelation.”

Harold Bloom, em entrevista publicada na Paris Review .

 

“He is a fucking bastard! And he didn’t let me fuck his wife, also.”

Padre Malachi Martin, no prefácio a Hostage to the Devil

 

“You are the disease. Februarius is the cure.”

Sylvester Stallone, durante uma coletiva na livraria Leonardo Da Vinci

 

“Volare, oô, cantare ooô.”

Silvio Berluscone, Interrompendo Sylvester Stallone durante a coletiva na Livraria Leonardo Da Vinci.

 

“O grafeno e o Februarius é nosso! Talquei?”

Jair Bolsonaro, na porta da Livraria Leonardo da Vinci

 

Colocando o Whatsapp  (tizape para os íntimos) a serviço da alta cultura e como um instrumento importante na salvação da Civilização Ocidental (Western Civilization para os íntimos), empreendemos esta entrevista com o poeta Igor Barbosa, nascido em Pernambuco, mas carioca de coração, e tão de coração, que, qual Nelson Rodrigues, também da terra de João Cabral e Alberto da Cunha Melo, se nos afigura um carioca nato honorário. O nosso entrevistado é autor de Februarius, livro de poesia recém lançado pela editora Mondrongo, através do selo Katharina sob o qual se publicaram, em homenagem a Bruno Tolentino, O Natal de Herodes, de Wladimir Saldanha,  Auto da romaria, de João Filho, e Quadros Provincianos, de Wagner Schadeck, livros esses que, contrariando o pessimismo militante tão em voga, de natureza frankfurtiana, mostram ser possível não apenas se fazer poesia após Auschwitz bem como também o é após o BBB e o programa de Fátima Bernardes.

 

***

  

Sergio de Souza: Igor, quando você percebeu pela primeira vez que tinha vocação literária?

Igor Barbosa: Eu sempre escrevi. Na infância, escrevia como atalho: Muito do que eu pensava perseguir me aparecia como realizado depois que eu tivesse produzido uns dois ou três parágrafos. Eu escrevi um poema no colégio para comemorar o dia da árvore e me senti muito satisfeito com isso, mas principalmente com a reação geral de interesse verdadeiro ou fingido – Distinção com a qual não soube me importar na época, e não quero me importar agora – e a particular da professora de me dar uma nota 10. Eu acho que fiquei definitivamente condicionado a apreciar as reações das pessoas aos meus textos; e na verdade, até hoje eu não pude discernir, em mim, nenhuma vocação que se possa distinguir fundamentalmente das vozes dos meus amigos, que ultimamente têm passado, no espectro que inicia no elogio aos meus textos e passa pelo franco incentivo, ao extremo oposto: Praticamente me obrigam a escrever. Minha vocação, se existe, é a de ser o poeta-escravo, cercado por capatazes cujos senso e gosto literário ainda me parecem dignos de assentimento.

 

 

Sergio de Souza: Quais são suas influências mais marcantes?

Igor Barbosa: Penso que cabe dividir minhas influências mais marcantes em dois grupos: Aquelas que moldaram minha maneira de ver o mundo e pensá-lo e aquelas que eu busco emular quando tento transpor para a palavra comunicável as coisas vistas e pensadas. Entre as primeiras, ressalvando a dificuldade de identificar influências individuais de cosmovisão quando se é Católico, e portanto sujeito a concordar com um milhão de pessoas diferentes, listo especialmente Santo Agostinho, o autor anônimo do blog “The Last Psychiatrist”, Blaise Pascal, Gilbert Keith Chesterton e Gustavo Corção e Dante Alighieri. Entre as segundas, Oscar Wilde, Henry Miller, Elizabeth Barrett Browning, Carlos Drummond de Andrade, Jorge de Lima e Carl Barks.

 

 

Leandro Cunha: Igor, no ofício literário que lugares ocupam a técnica e a inspiração (ou dom, como preferir)? As palavras são calculadas em que medida?

Igor Barbosa:  Uma vez, eu briguei com minha esposa, que me dissera que eu tinha “facilidade” para escrever. Tempos depois, tive que assumir que, para quem vê de fora, é normal que pareça fácil; embora eu queira crer ainda que o que se chama de facilidade seja apenas fruto de milhares de horas de leitura atenta e exercícios de imaginação, custosamente adquiridos. Não importa mais. Eu diria que o que chamam de inspiração, se entendido como uma atenção às impressões internas em constante intercâmbio com o mundo real – seus dados e coisas concretas – não sobrevive por muito tempo sem ser burilado tecnicamente; mas que também a técnica, oferecendo um milhão de ferramentas ao autor, também exige deste – pelo menos de mim – uma dose considerável de intuição na hora de realizar as opções mais comezinhas. Uma mão lava a outra, e técnica e inspiração vão se afiando mutuamente, à medida que se vai escrevendo.

 

 

Pedro Ribeiro: Igor, o estudo acadêmico de filosofia (você chegou a graduar, certo?) influenciou de algum modo sua produção poética? Como?

Igor Barbosa: Não. A UERJ ficava a maior parte do tempo em greve; eu só queria um diploma, e faltava a muitas aulas; das aulas a que assistia, muitas eram muito ruins e tratavam de temas não filosóficos, mas de história da filosofia, apenas, e de crítica textual. Eu estudei muito mais filosofia fora do ambiente acadêmico que dentro, e mesmo assim estudei quase nada; conversando com filósofos eu sempre assumo a postura de retardado, porque os filósofos são sempre muito rigorosos e eu, sem ter nunca sido capacitado, ainda por cima estou sem treino… Mas o pouco de filosofia que estudei forma, provavelmente, a terceira maior influência na minha produção poética, sendo a primeira o próprio mundo real em que me movo e a segunda todo o corpo formado pela Bíblia Sagrada, Hagiografia, orações e ritos da Igreja Católica.

 

 

Jessé de Almeida Primo: Igor Barbosa, há na sua poesia uma articulação entre um registro que, por vezes, abarca a dicção das periferias e uma elaboração poética sofisticada, camoniana diria. Como percebeu ser isso possível?

 Igor Barbosa: Todos os meus poemas nascem da articulação de um verso com seus vizinhos possíveis. Pelo menos nos meus primeiros poemas, em algumas ocasiões, essa dicção periférica se impôs pela simples necessidade de rimar. Não posso dizer, no entanto, que percebi que isso era possível porque eu nunca soube que era impossível – até porque eu comecei a escrever poesia mais por um interesse lúdico nas possibilidades da linguagem que por pretensão de ser este ou aquele tipo de poeta. Essa falta de pretensão, ao permitir a abertura do vocabulário para baixo, logo tornou impositiva essa expansão para a linguagem menos restritiva, que procuro restringir para não tornar-me caricatura; e ao mesmo princípio se submete a minha elaboração poética que você diz sofisticada, gentileza que agradeço: A necessidade de partir de um verso, de uma palavra, de uma expressão para, em torno e a partir daí, tecer o melhor objeto poético que me for possível naquele momento.

 

 

Daniel Araújo: Poesia no Brasil, hoje: por que ler? Por que escrever? Vale a pena?

 Igor Barbosa: Uma coisa é a poesia, no Brasil, hoje; outra é a “poesia no (do) Brasil hoje”. No Brasil, hoje, você pode ler Dante Alighieri, que é suficiente para uma vida inteira, e também pode ler aqueles fedorentos que vendem poesia de xerox nas universidades. O Brasil hoje não me parece uma entidade tão fundamentalmente diferente, para os interessados em poesia, que qualquer lugar em qualquer tempo, exceto porque temos internet e livrarias com frete barato, isto é, estamos mais bem aparelhados que a maior parte da humanidade na história. Feita essa distinção, passo a responder da única maneira que posso: Deve ler e deve escrever quem quer. A poesia não tem dono, e ninguém é insubstituível. No entanto, há coisas que só convém fazer por conta própria se você faz muito bem; e há coisas que se deve fazer por conta própria, mesmo que você as faça muito mal. A poesia é um pouco das duas coisas. Sem “poesia”, usando aqui o termo em sentido muito lato e muito frouxo, o ser humano não tem contato com sua própria capacidade de dizer-se; todos devem, portanto, buscar de alguma forma viver atentos a esta quase condição para a própria humanidade, mesmo que esta atenção seja vivida desleixadamente. Ninguém deve, no entanto, pelo simples fato de querer escrever, supor que os demais são obrigados a ler e apreciar seus escritos; ninguém deve, pelo simples fato de ler, supor-se membro de uma casta agraciada com os bens da cultura (até porque a grossa maioria do que se publica, se vende e, portanto, se lê, é uma porcaria absoluta sem qualquer relação com nossa herança comum de seres humanos). Ler é difícil e toma tempo; depois de muitos anos lendo, cada vez mais me convenço que aproveito muito pouco o que leio, e sempre que volto a um livro descubro ali inúmeros tesouros que não havia percebido numa leitura anterior. Cada texto lido ensina a ler os outros. Quanto a valer a pena, estou com o Fernando Pessoa preferido das tatuagens de jovens burguesas. Ler e escrever por amor a algo é sempre bom; escrever, mesmo que ninguém leia, é algo que todos devem fazer se a opção de não escrever for inviável. Ler e escrever por apego a uma autoimagem, por dinheiro (LOL), por prestígio (LOLOLOL) e etc. é uma péssima ideia que não rende fruto algum.

 

 

Pedro Almendra:A que poeta já morto você gostaria de mostrar seus poemas?

Igor Barbosa: A nenhum! Eu não ligo muito nem para mostrar meus poemas para os vivos, poetas ou não. São as pessoas que ficam me dizendo que gostam de ver os que mostro, então continuo mostrando – quando elas passarem a reclamar, ou mesmo a não dar atenção, paro e continuarei vivendo minha vida muito tranquilamente, escrevendo ou não. Isso posto, eu tive a oportunidade cronológica e geográfica de conhecer Bruno Tolentino, mas nunca cheguei a vê-lo pessoalmente, mesmo tendo amigos entre os amigos dele; e isso foi uma pena, porque todos os testemunhos indicam que ele foi, além do poeta extraordinário a que temos acesso nos livros, um homem generoso que não teria se recusado a me ensinar muitas coisas, mesmo que nosso convívio fosse curto. Ou seja: Eu gostaria de tê-los mostrado a Bruno Tolentino, mas não gostaria de os mostrar a nenhum, que todos descansem em paz e Deus os tenha.

 

Jessé de Almeida Primo: Galinha Pintadinha ou Peppa Pig?

Igor Barbosa: Depende de qual filho está no colo. Se eu estiver sozinho, Peppa Pig.

 

Jessé de Almeida Primo: Como consegue conciliar uma reunião a respeito de mísseis e radares com a poesia?

Igor Barbosa: É porque conciliar a poesia com a inanição é ainda mais difícil. Você não sabe como é frustrante ver sua filhinha chorando por um colar de diamantes…

 

Jessé de Almeida Primo: Nas redes sociais, mais precisamente entre os que acreditam resgatar a alta cultura, resgatou-se o lamento adorniano sobre a impossibilidade de se fazer poesia após Auschwitz sob a forma de “como fazer poesia após o BBB”. Poderia comentar esse fenômeno?

 Igor Barbosa: Caipirice. O mundo sempre foi ruim, mas sem internet, que, se nos permite ler TODOS os clássicos da literatura (para não falar da música que se pode ouvir, das obras de artes plásticas que se pode ver…) de graça e instantanemente, também facilita muito que os “idiotas da aldeia” não apenas venham berrar suas parvoíces muito perto de onde nossa atenção se foca, como também se considerem muito inteligentes ao fazê-lo. A burrice empavoada tem qualquer coisa de hipnótico, de modo que, onde quer que ela se manifeste, comanda muita atenção. No entanto, as consequências da burrice, da arrogância, da maldade e da disposição geral que o ser humano tem para sacanear os outros – estas consequências são o pano de fundo e tema da literatura desde sempre. A Ilíada é só isso, praticamente. Quanto pior a realidade, mais a arte é necessária.

 

 

Elton Quadros: Como você vê a poesia brasileira realizada pelos poetas atuais? O que há de bom ou de ruim? Quais são seus poetas preferidos na “nova geração” (justifique a resposta)?

Igor Barbosa: A poesia atual, em todos os tempos, é algo difícil de entender. As cristalizações vão acontecendo e o julgamento da posteridade é determinante. Eu considero, no entanto, que há uma grande quantidade de ótimos e bons poetas brasileiros em atividade, hoje em dia, e acho que a posteridade vai ter trabalho em filtrar os “melhores” – ou vai ter que nos receber a todos de braços abertos. O que há de muito bom hoje é a predominância, entre meus pares, de uma disposição a enxergar a poesia pelo que ela é, desprezando seus aspectos acessórios que sempre a rebaixam à subserviência política / social, ao clubismo, etc. De ruim, considero duas coisas, sendo a primeira a tendência de muitos poetas se fecharem dentro de seus grupos de diálogo mais constantes e não procurarem o concurso de artistas plásticos, músicos, etc. A segunda é a existência de todo um mercado editorial de falsa poesia, que atinge um público que, suponho, sustenta as edições desses livros em que o grafismo e a diagramação são tão importantes quanto o texto, sendo o texto sempre um aforismo, uma tirada bobinha e metida a engraçada, um suporte para narcisismos ou
prosa ruim e sem
profundidade
com quebras de linha
aleatóri
as

 

Fabrício Tavares de Moraes: Igor, a Nova Direita tornou-se célebre, dentre outras coisas, pela afirmação de que não temos, há décadas, uma literatura realmente brasileira. Você acredita nisso? Caso positivo, por que isto se deu? Caso negativo, por que as pessoas vendem e, pior, acreditam nisso?

Igor Barbosa: Não acredito de forma nenhuma. A literatura brasileira, desde o período colonial (Gregório de Matos! Padre Antônio Vieira!) até a atualidade, é de alto nível técnico e cheia de investigações espirituais valiosas. O que há é muita gente gritando fogo pra vender extintor; e muita mágoa com a aparente politização do ensino de literatura no ciclo básico da educação que as crianças e adolescentes recebem. Mas o que houve, no Brasil dos últimos 30 ou 40 anos, foi uma decadência geral do currículo escolar e das capacidades dos professores, bem como uma erosão moral que torna muito difícil convencer alguém a aprender; de modo que, naquelas pessoas que sentem em si uma inclinação para a vida de cultura, o ambiente geral parece extremamente pernicioso. Os físicos e químicos também reclamam, não apenas porque nas escolas não aprenderam o que deviam quando era tempo, como também porque as pessoas desprezam o conhecimento científico exato. Não nego que houve politização e o rebaixamento respectivo; mas o fator principal me parece ser preguiça e apego a padrões mais baixos, o que é exasperador para quem não se encaixa nesse modo de viver, ficando assim carente e propenso a ver fim do mundo onde só há as cruzes do dia a dia. No entanto, aprender, hoje, não apenas é possível como é mais fácil e barato do que nunca na história. A literatura brasileira, como eu disse, está aí, e não posso argumentar em favor de um fato; basta ir a um sebo que este se demonstra.

 

Jessé de Almeida Primo: Você é a favor da terra plana?

 Igor Barbosa: Eu sou a favor da terra plena, feliz consigo mesma, realizada…

 

Robson Oliveira: Os limites entre ética e estética sempre me incomodam, Igor. Você reconhece um dever-ser para a inspiração poética, algo como uma função poética a se cumprir, ou a concebe absolutamente sem restrições?

Igor Barbosa: Minha visão da poesia se subordina à minha visão da arte, que se subordina a minha visão da realidade e vida; se eu acredito que tudo que existe possui um sentido, um papel, um lugar, e é claro que a poesia também. A poesia, em si, não existe fora das realizações dos poetas, a não ser enquanto possibilidade. No que acredito é que cada poeta, ao escrever, tem inteira liberdade exceto pelo seguinte: Toda escolha é uma renúncia, e escrever poesia é escolher (portanto, renunciar); todos temos uma responsabilidade individual por tudo que fazemos e dizemos, e é essa responsabilidade que dá um sentido a tudo que existe; todos os fatos, atos e coisas só podem ser nomeados e descritos por uma mente humana (ou divina, claro). No Gênesis, Deus incumbe Adão de dar nome aos animais, e isso se relaciona com o domínio do homem sobre o mundo animal (e por extensão todo o mundo físico). Não haveria poesia se não houvesse a responsabilidade final, a consciência individual que permite que cada um se saiba diferente de tudo em torno de si; a poesia e a responsabilidade, que é só um outro nome que se pode dar à liberdade, são a inspiração e a expiração dos pulmões do espírito. Portanto, não posso sequer conceber um poeta que não se sinta responsável frente a ALGO, embora conceba que possam haver equívocos de princípio e/ou de circunstância na escolha desse algo, de poeta para poeta.

 

Elton Quadros: Quais filósofos brasileiros vivos que você mais admira?

Igor Barbosa: Eu lá sou homem de admirar filósofo, ainda mais vivo?!?!?! Admiro é a minha esposa, que faz meu almoço!

 

Pedro Ribeiro: De onde vem seu gosto por Pascal?

Igor Barbosa: Vai parecer babaca, mas a verdade é a seguinte: Eu deduzi, por conta própria, a aposta de Pascal quando tinha uns 8 anos. Eu estava na Igreja pensando sobre o sentido daquilo tudo e concluí aquilo mesmo: Deus existindo, ou não, valia a pena viver como se Ele existisse. Claro que a leitura da obra deste grande filósofo, depois, me trouxe tanto alento que não posso deixar de associar toda a obra dele à íntima e agradável sensação de, numa manhã de domingo, depois da missa, chegar a uma conclusão agradável. Para mim, a aposta de Pascal ainda é um silogismo irretocável, e é o fundamento da minha poesia: Vale a pena confiar em Deus, mesmo que Ele não exista (porém, existe).

 

Jessé de Almeida Primo: Igor Barbosa, por que você implica com Fernando Pessoa? Eu, particularmente, o acho lindo, apesar de ele implicar com Camões e ter inveja dele.

Igor Barbosa: Eu não implico com Fernando Pessoa pela obra dele, não. Nem pela obra dos outros cinco ou seis poetas que ele inventou, dos quais mal sei os nomes e muito menos a diferença entre uns e outros. De Fernando Pessoa, pessoa real, apenas sei que era um leitor da literatura inglesa, sem conhecer, da obra dele, o suficiente para avaliar o tamanho e a profundidade dessa, por assim dizer, influência. Mas repito: Não implico. O que eu quero é o lugar dele no Cânon. Algo me diz que, se eu me dedicar, entrar de cabeça, fizer o meu melhor… nada disso garante que eu vá conseguir. Mas que vou tentar, vou!

 

Jessé Almeida Primo: Saber a diferença é fácil: Caeiro escreve como um caipira português e deveria servir de modelo para Manuel de Barros que deveria, por sua vez, ter sido engolido por um crocodilo goiano antes de pensar em pegar da pena; Ricardo Reis, imita Horácio, tem uma sintaxe mais retorcida para imitar o latim; Álvaro de Campos, por fim, é uma escandalosa inspirada.

 Igor Barbosa: Então o Ricardo Reis é o melhor de todos? Pode ser também o Álvaro de Campos, a depender do tamanho (ai, como era graaaaandeee…) e da qualidade da inspiração.

 

Jessé de Almeida Primo:  “Fernando Pessoa, que teve a já mencionada formação inglesa, me lembra que a poesia nessa língua parece explorar em formas bem definidas ou uma linguagem de quem está conversando informalmente ou desenvolve uma tese, como vemos nos sonetos de Shakespeare, ou se ocupam com narrativas, como as baladas, algo um pouco mais afastado do que muitas vezes se entende como lírica no Brasil.  Enxergo sua poesia como, em parte, tributária dessa tradição. Era nisso que estava pensando ao responder sobre Fernando Pessoa ou há algo mais?

Igor Barbosa: Há algo mais, que para mim é o principal: Para mim, tenho com clareza que a língua inglesa possui naturalmente um poder expressivo que em português não se traduz diretamente (e vice versa, é claro); daí ser a literatura inglesa um tanto alienígena para mim, e despertar-me o interesse dos enigmas e das mensagens em código. É onde eu busco a intenção de dizer, em português, as coisas maiores com um palavreado mínimo; daí a natureza meio “porca / parafuso” de muitos dos meus poemas, reconhecendo ainda que muitos, talvez, apareçam enjambrados. Enfim, este “algo mais” é difícil de verbalizar, e talvez deva ser deixado para ser expresso sob forma poética; e aqui justifico qualquer metapoema com que eu venha a futura e eventualmente ocupar as páginas de algum outro livro. Ao falar de tudo, a poesia tem também o direito de falar de si mesma, de sua origem e seu processo; mas é chatíssimo quando os poetas abusam disto…

 

***

 

Três poemas de Februarius:

 

Um Fevereiro

Num só dia
vi Ítaca de alto-mar;
quis lançar-me então ao porto,
mas faltavam-me as marcas
de uma guerra por lutar:
Contive-me sem querer,
e a vida se fez passar.

Deu-se o que sempre se dá
nos começos:
Cada passo ganho ao mundo,
na colheita de paisagens
ou na estação de remar,
nos põe mais longe da vinda
e mais perto de voltar.

Deu-se o que sempre se dá
no que segue:
Penélope estendeu
seus mantos de eternidade
sobre a sala –
sobre a pequena sala –
entre as pernas da mesa –
sobre as portas do armário.
Eram mantos de absoluto –
de universo –
de ar.

 

***

 

III.

Vi hoje ao passar da contemplação ao absurdo
dois cães que lutavam, não sei se ferozes ou sport men,
não sei se por osso que venha de fora para dentro
ou se por um músculo que cresça de dentro para fora.

Os cães (com suas pelagens que não me diziam ou diriam
nada, nem que bocas tivessem, infinitas bocas [uma em
———————————————————- cada pelo]
que me dariam lições de moral carregadas de anos
de lutas de rua, se fosse o caso) iam vivendo.

Os panos rasgaram-se de alto a baixo, uma simples
ameaça de volta rompeu o eixo lá do mundo,
a calçada sumiu sob os pés dos passantes, e um rosto
de completa malícia surgiu no acaso das nuvens

rosnando blasfêmias ao vento, e logo apagou-se;
as cães prosseguiram na luta; a vantagem oscilante
revezou-se, como é normal, entre um e o outro;
a calçada firmou-se outra vez; o eixo lá do mundo,
corando, ajeitou-se, refeito. Ninguém percebeu.

 

***

 

XX.

Vendo vazio o leito em que dormia,
busquei, sem encontrar, aquele que amo,
busquei-o sem conseguir encontrar.

Ergui-me, indo procurar nas vias
e praças da cidade, aquele que amo;
busquei-o, mas não o pude encontrar.

Encontrei-me com quem lhes policia,
à noite, esta cidade: “o que amo,
acaso, viste-o, guardas, passar?”

E ouvindo-lhes o não, ainda mal ia
passando, quando achei aquele que amo.
Prendi-o então, e não o hei de largar,

até que na dileta moradia
de minha mãe entre aquele que amo,
no quarto dela, a que me fez andar.

Conjuro de Jerusalém as filhas:
Pelas corças do campo e pelo gamo,
não desperteis nunca o amor, e frias
mantende-vos, por não o perturbar,
até que chegue para vós o dia
em que o amor deseje acordar.

 

 

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