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Entrevista com Seymour Glass*

Entrevista por Sergio de Souza

Ele é professor de filosofia. Usa pseudônimo. Filosofando e provocando o pensamento de seus leitores, criou um público cativo filosofando pelas redes socais. É um campeão de curtidas fazendo os habitantes do facebook pensarem em questões muitas vezes espinhosas. Pensa que é fácil? Digo: não é. Isso é um feito.

Quem é Seymour Glass? Num post, confidenciou que até mesmo sua esposa lhe respondeu que era “realmente estranho”. Pouco importa. Seymour Glass é um cara que tem feito o público das redes se desviar das futilidades diárias tão próprias desses ambientes para adentrar o conhecimento filosófico. Tem feito uma galera despertar para o fato de que a vida significa mais do que os olhos podem ver, mais do que apenas um dia após o outro. Num salmo (89), Davi pede a Deus: “Ensina-nos a contar nossos dias para que o nosso coração alcance a sabedoria”. É a tal da vida refletida que nós tanto prezamos.

Nessa entrevista Seymour responde sobre filosofia, literatura, influências, Olavo de Carvalho, beleza, educação e religião. Não se esquiva de nada. Acompanhe conosco!

Seymour Glass, você gosta dos contos de J. D. Salinger? Seymour era uma espécie de santo para a família Glass. Por que esse pseudônimo? Tem a ver com a necessidade que Salinger tinha de cultivar a “liberdade da solidão”?

A literatura de J. D. Salinger esteve presente na minha vida em dois momentos. No primeiro, foi quando tive acesso, quando morei nos Estados Unidos, às aulas de língua/literatura inglesa. O professor era fascinado por ele. Foram três meses analisando ‘The catcher in the rye’ e, por fim, ‘A perfect day for Bananafish’. É claro que por ser adolescente, tinha acabado de fazer dezesseis anos, não entendia muito bem os temas discutidos. Mas essa apresentação inicial foi muito importante, visto que anos mais tarde o Salinger retornaria por meio de um amigo, na universidade, que, por coincidência, era leitor assíduo dele. Foi então que li Franny & Zooey. Esse livro é tremendamente impactante. Eu sei bem que para um autor da estatura do Salinger não é uma obra confortável – Franny & Zooey é apologética do início ao fim. Ali comecei o meu retorno ao cristianismo. De todo modo, por meio dela que o personagem Seymour Glass se torna uma figura emblemática devido ao seu caráter solitário, uma forma de introspecção que nos remete ao desejo de conhecer. Neste sentido, o pseudônimo caiu muito bem, como uma luva. 

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O Apanhador no Campo de Centeio
  • J. D. Salinger
  • Publisher: Editora do Autor
  • Edition no. 19 (01/07/2019)
  • Capa comum: 250 pages

Você é bastante polêmico (como essa última postagem que você fez sobre o Flamengo, que é um comentário do seu irmão: “Quando acontece uma tragédia com qualquer empresa todo mundo logo vai postando que ‘a Vale é isso’, a ‘Vale é aquilo’. E está certo. Agora, com o Flamengo, eu vejo o contrário: ninguém critica ou coloca o Flamengo como responsável, muito pelo contrário, só tenho visto #ForçaFlamengo. É duro” ), mas percebo que provoca para fazer seu público pensar. Por que você acha que as pessoas curtem tanto os seus posts? Há espaço para filosofar para um público grande onde no Brasil? Dá para filosofar pelas redes sociais? Você é um filósofo ou um professor de filosofia?

Sempre desejei imitar os ensaístas do Iluminismo. Aliás, esse é um dos poucos pontos da filosofia iluminista que considero realmente genial. Escrever ensaios como os de David Hume e Montaigne não é para qualquer um. São obras com uma linguagem clara, mas como temas autenticamente filosóficos. Nesse ponto, a internet veio a calhar para quem deseja dialogar com os leigos. Mais que dialogar: inspirá-los. É óbvio que se corre o risco de a filosofia ser completamente rebaixada. No entanto, a tentativa é válida e nobre. As pessoas reclamam da linguagem usada nas redes sociais, mas não fazem praticamente nada para elevá-la. São raros os perfis que realmente valem a pena ler. Por exemplo, o Twitter, que é onde as pessoas escrevem pouco, porém, muito mal, deveria ter um tratamento melhor. É possível escrever de modo fragmentado sem cair numa linguagem porca. Basta tomar Novalis como parâmetro. Sua finalidade era jogar fragmentos de pólens para fertilizar as almas e fazer brotar a “flor azul”, símbolo místico do conhecimento e/ou da verdade no romantismo alemão. Eu sei que exigir que todos sejam Novalis é uma idiotice sem-fim. É como pressupor que todos podem ser Goethe só por saber gramática e ortografia. No entanto, deveríamos almejar isso. Colocar essa como uma das finalidades nas redes sociais. Por que não?! Eu tento fazer isso de uma forma ou de outra. Reconheço minha mediocridade, que sou um mero professor de filosofia. Todavia, o esforço é válido.

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Ensaios
  • Michel de Montagne
  • Publisher: Editora 34
  • Edition no. 0 (11/22/2016)
  • Capa comum: 1032 pages

O que você acha dos “filósofos pop” como Karnal, Pondé e Cortella ? É filosofia ou lero lero para vender produtos?

Dos três, para mim, o Pondé é quem realmente possui uma veia filosófica. O problema é que quem se expõe para ganhar fama acaba por pagar o preço, que é justamente o de se rebaixar aos assuntos corriqueiros ou criar intrigas com comentários totalmente injustos para ser notado, como fez com o Olavo de Carvalho. No que diz respeito aos livros que encontramos nos supermercados, nas entradas das livrarias, nas farmácias, são somente produtos descartáveis. O brasileiro, por conta de um processo de deseducação que dura décadas, é carente de cultura. Cortella e Karnal, por exemplo, aproveitaram-se disso. Escrevem livros para satisfazer uma curiosidade pobre de um público ignorante que desconhece por completo o que é a real filosofia. É um novo fenômeno que poderíamos chamar de “autoajuda chique”. Chega a ser cômico pressupor que frases soltas de Nietsche, Pascal e Camus irão salvar as pessoas do tédio, da melancolia ou mesmo da estupidez.

E o Olavo? E os olavetes?

Respeito demais o Olavo de Carvalho. Como pessoa e filósofo. É um sujeito que possui uma capacidade de análise que poucos têm. Suas obras acadêmicas são realmente boas. O Jardim das Aflições oferece uma outra perspectiva do Epicurismo, por exemplo. Sem falar que suas indicações ajudaram a restaurar um pouco toda a área editorial brasileira, que sempre foi ridícula. O problema dos “olavetes” é que muitos não compreendem o próprio Olavo. Sem falar que não precisa ser próximo do Olavo para perceber que muitos estão ali para usufruir de sua fama, conquistada por méritos próprios. Mas isso é um fenômeno normal. Há alunos bons, ruins e péssimos. Isso em toda a história. Com o Olavo não poderia ser diferente.

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O Jardim das Aflições
  • Olavo de Carvalho
  • Publisher: Vide
  • Edition no. 3 (04/01/2015)
  • Capa comum: 464 pages

E outros populares que, se não são filósofos, habitam o mundo da antropologia filosófica e da psicologia, e estão famosos no ambiente conservador como Jordan Peterson e Nassim Taleb e o brasileiro Ítalo Marsili?

Desses três, só me interesso pelo Jordan Peterson. Então desconheço os outros dois. De toda forma, parecem fazer trabalhos dignos, pelo menos o Nassim Taleb.

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Mapas do Significado: a Arquitetura da Crença
  • Jordan B. Peterson
  • Publisher: É Realizações Editora
  • Capa comum: 696 pages
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12 Regras Para a Vida. Um Antídoto Para o Caos
  • Peterson Jordan B.
  • Publisher: Alta Books
  • Edition no. 1 (05/04/2018)
  • Capa comum: 448 pages

Que pensadores mais te influenciaram? Há um post seu do qual gosto muito (Somente pessoas lúcidas enxergam pés de feijão subirem aos céus; lobos maus e faunos em florestas; casa feita de doces que atrai crianças; belas adormecidas que despertam com o beijo de um príncipe; animais que conversam. E os loucos? Estes percebem uma realidade numérica: o Sol, para os insanos, é apenas uma estrela composta por 73,46% de hidrogênio, 24, 85% de hélio, 0,77% de oxigênio, 0,29% de carbono, 0,16% de ferro, 0,12 de enxofre, 0,12% de néon, 0,09% de nitrogênio, 0,07% de silício, 0,05% de magnésio. Não é à toa que Chesterton dizia que “o louco é um homem que perdeu tudo exceto a razão”. Talvez Deus seja um poeta, não um arquiteto. Quem sabe, para Ele, as estrelas não sejam massas constituídas de hidrogênios e hélios, mas minúsculos diamantes. A criatividade e a vida acompanham a sanidade. Somente pessoas sãs são capazes de criar e dar vida a um Aquiles, a um Hamelet, a um Raskolnikov ou a um Brás Cubas. O louco, por sua vez, é uma pessoa sem graça, que vê o mundo escrito em caracteres matemáticos.”) Dá para ver que a literatura é importante na sua trajetória. Quanto? Quais são os autores mais marcantes?

A literatura esteve muito presente na minha formação filosófica. Em certos períodos, lia mais Dostoiévski e Tolstoi que os próprios filósofos. Por quê? Para assimilar os conceitos e compreender alguns problemas colocados pela própria filosofia, só que sob uma perspectiva psicológica, existencial, religiosa. Além do Salinger, Dostoiévski e Tolstoi, Hermann Hesse, Adolfo Bioy, Tchekhov, Canetti, Turguêniev, Victor Hugo, Thomas Mann, Graciliano Ramos e Machado de Assis me marcaram muito.

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Os irmãos Karamázov
  • Fiódor Dostoiévski
  • Publisher: Editora 34
  • Edition no. 1 (01/01/2008)
  • Capa comum: 1040 pages

E a cultura pop? Ajuda a ‘filosofar’? Você usa filmes e séries nas suas aulas? Seus alunos têm interesse?

Sou um professor muito tradicional, daqueles que passa a estrutura no quadro e explica o filósofo ou o tema por inteiro. Não sou de usar música, filmes e séries. Quando faço uso, alguns quadrinhos, como Sandman.

Por que o catolicismo?

Porque é a religião que condensa toda a Verdade.

Você fez uma postagem recente sobre a feiúra das cidades brasileiras. Por que a beleza importa ? Estar rodeado de feiúra faz a alma adoecer?

Os gregos estavam certos: beleza e bondade são coirmãs. A beleza nos remete a uma ordem, enquanto que a feiura é a desordem manifesta. E nem precisamos de tratados para explicar isso. É uma intuição imediata, como diria Kant. Basta estar presente para perceber.

Você é professor. Deve conhecer de perto a realidade da educação brasileira. Perto destes inúmeros problemas , essa ansiedade pela legalização do homeschooling não te parece mais fetiche de uma minoria que alimenta demais a cabeça com cosmovisão medieval do que qualquer outra coisa? Em que abismo nossa educação está enfiada? O que acha de homeschooling?

A educação brasileira só será reerguida quando começarem a perceber o óbvio: nem todo mundo nasceu para a vida intelectual. Muitos querem exercer trabalhos práticos. A partir de um determinado ano, o Ensino Médio, talvez, é preciso oferecer o que cada um deseja; levar em consideração as características pessoais. Esse é o maior problema dentro de uma sociedade de massa. O homeschooling é interessante porque ele resgata essa pessoalidade. Mas acho que seu impacto é restrito. De todo modo, é um direito de liberdade legítimo. Sobre o abismo educacional em que estamos, basta notar como o brasileiro lida com as escolas. Os pais acreditam piamente que seus filhos sairão geniais só porque pagam mensalidade em uma escola famosa. Eles vivem num universo mágico. É interessante que esses pais valorizam a razão, a ciência, mas a relação que têm com a educação é mágica. Acreditam que o processo educativo não envolve a família, o lar. A casa do brasileiro comum, por exemplo, é repleta de entretenimento: Netflix, vídeo-game, TV a Cabo etc. Quando pergunto: “E o que há na casa para seus filhos estudarem? Escrivaninha? Biblioteca? Microscópio? Telescópio”, os pais ficam assustados. Ou seja, eles querem que os filhos aprendam a gostar de estudar sem nenhum incentivo, como se fosse “mágica”.

Escrevi um pequeno texto há pouco dizendo que o apostolado do católico é sua própria vida. Certa vez ouvi uma velhinha protestante dizer de um professor: “ele encarava o magistério como um sacerdócio!”. Bingo! Você escreveu recentemente sobre os “cruzados de internet”: “Quer converter alguém? Seja gente boa, beba cerveja e café, curta futebol, jogue vídeo-game, viva como alguém normal do século XXI e escreva ou fale sobre o cristianismo sem afetação. Você não precisa usar gravata borboleta, terno e se expressar como se fosse um português do século XVI. Cristo se fazia entender para o sujeito mais iletrado. Ele se sentava, com a maior paciência do mundo, e contava histórias. Além disso, participava de festa e brincava com as crianças. Se fosse afetado, teria escrito tratados Metafísicos e se misturado entre os acadêmicos da época. Mas o exemplo que a gente tem não é esse”. Você encara seu magistério como um apostolado, como um sacerdócio?

Sendo católico, não poderia encarar o magistério de outra forma. Mas entendo o apostolado de forma bem diferente. No caso, o que me esforço por fazer é um bom trabalho. Tento inspirar os alunos ao conhecimento filosófico. Isso já é muita coisa. Mais do que convertê-los ao cristianismo, quero convertê-los à filosofia. O que eles farão com isso é decisão de foro íntimo. Ora, Santo Agostinho foi convertido por meio de uma obra de um pagão. Quando leu Hortensius, de Cícero, que passou a ter a real noção de o que é a busca pela verdade. E ele foi buscá-la. Seu ímpeto foi tão admirável que encontrou Cristo.

Confissões
  • Santo Agostinho
  • Penguin-Companhia
  • eBook Kindle
  • Português

Quando sairá seu livro? Já tem contrato com alguma grande editora?

Não faço a mínima ideia. Às vezes tenho um esboço de que o livro poderá sair daqui a quatro anos. Outras vezes penso que só escreverei alguma coisa para ser publicada na última fase da velhice.

Política: direita ou esquerda? Você já escreveu que não é de direita, é católico. Um amigo recentemente me disse que toda a esquerda é ruim, mesmo se for honesta. A destruição total da esquerda não é o fim da democracia? Ou você também acha que a democracia é uma falsa deusa?

Existe uma esquerda não-marxista. O problema é que os esquerdistas sensatos nunca prevaleceram. No Brasil atual, a esquerda é uma reunião de ideólogos, no pior sentido do termo (aquele dado pelo Eric Voegelin: corrupção da linguagem e, ato contínuo, da realidade). Por outro lado, em termos democráticos, é preciso se estabelecer a dialética. Eu não defendo a democracia, assim como não defendo a monarquia. O que defendo é o espírito republicado. Seja na democracia ou na monarquia, o republicanismo tem de prevalecer, sempre. O brasileiro não percebeu isso ainda.

E a felicidade? Você escreveu: “Felicidade para os filósofos gregos era um estado do ser. O que isso significa? Explico depois que acabar de fazer o café.” Onde está a felicidade para Seymour Glass? Antes ou depois do café? Hehe. Esta foi a última pergunta. Deus te abençoe e muito obrigado!

Como cristão, não acredito na felicidade terrena. Mas acho muito possível termos uma vida feliz no sentido de vida serena. Por isso que admiro a forma como os gregos compreendiam a eudaimonia. É mais uma capacidade de saber lidar com os “daimons” internos que qualquer outra coisa. E se formos traduzir daimons por demônios, por mais que seja um erro, o sentido, neste caso, ficará até mais claro. A vida é repleta de tormentos demoníacos. Cabe ao cristão saber lidar com eles, superá-los. A felicidade seria uma postura diante dos problemas da vida.

***

*Seymour Glass é professor de filosofia e editor da fanpage Esboço de Sanidade.

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