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Entrevista com Tiago Amorim

Tiago Amorim é professor e escritor. Homem apaixonado pela “vida humana” que aprendeu a observar com os filósofos espanhóis do séculos XX capitaneados por Julian Marías; e, a partir desta observação,  desenvolveu um trabalho pedagógico no qual ajuda as pessoas a aprenderem a “falar, a viver, a se governar”, atendendo-as pela internet ou pessoalmente, em aulas, textos ou livros.

Tiago passou recentemente um período em Portugal e agora retorna ao Brasil. Atendeu-nos com presteza e generosidade tão próprias, contando-nos sobre seu período europeu, seu trabalho, vocação, influências e outros assuntos.

Agradecemos ao professor pela entrevista, e lhes convidamos, caros camponeses, a “entrar na casa” do  Tiago junto conosco.

Sergio de Souza: Tiago, é muito bom saber que você está voltando para o Brasil. Como foi a sua experiência na Europa? Como você compara o clima cultural com o que acontece no Brasil? Algum projeto novo para esta nova fase?

Isto renderia um ensaio, no mínimo – algo que, num futuro breve, espero, ainda escreverei. A experiência de viver num país europeu, ainda que periférico (Portugal é assim considerado geográfica, política e culturalmente dentro do continente), deu-me muito o que pensar e abriu-me os olhos para muitas coisas, tanto sobre a pátria lusa quanto sobre a nossa, de alguma maneira herdeira daquela. Em termos de clima cultural, sou sincero em dizer que o Brasil, hoje, vive o que tenho chamado de “efervescência criativa”, como se de uns anos para cá muitos novos artistas e pensadores tenham se lançado, com livros principalmente, ao crivo do martelo dos dias. Quer dizer: algo parece mesmo estar emergindo, mas ainda não sabemos se irá perdurar – a julgar pelos reveses políticos e econômicos pelas quais temos passado. Sei das grandes livrarias que fecharam as portas nos últimos meses, como também sei dos bons números de vendas de alguns títulos que parecem “fazer a cabeça” de uma parte da nova intelectualidade brasileira, muitas vezes alterando os termos do combalido debate nacional sobre nosso destino, identidade etc. Comparado a isso, Portugal está dormente, necessitando do que metaforicamente chamei de “um novo terremoto”: lá o importante, visceralmente importante, não se discute (senão em círculos tão pequenos e ideológicos que não têm relevância geral). O mercado editorial português é tímido e provinciano: insistem em publicações tradicionais, não imprimem mais do que mil exemplares por tiragem (o que já é considerado um feito para autores pouco conhecidos) e tem sérias restrições (ou preconceitos?) com alguns escritores brasileiros contemporâneos, por exemplo (a quem pedem, como foi no meu caso, a estúpida “tradução” da obra). Entretanto, estamos falando do país de Camões, Eça, Camilo, António Lobo Antunes, Miguel Torga, Agustina Bessa-Luís (que deveria ter sua obra toda editada no Brasil, urgentemente), Alexandre Herculano, Sophia de Mello Breyner e tantos outros – para não mencionar arquitetos, pintores, escultores etc -: uma herança e produção assim não se apagam nem se perdem facilmente, e por isso, ainda que “entediado” culturalmente, necessitado de um avivamento espiritual, o povo português tem diante dos olhos esses espectros todos, ao alcance das interessadas mãos que conseguem dar vida ao que corre o risco de, para as gerações atuais, não ser mais do que um conjunto de fantasmas.

Quanto a mim – projetos a partir desta volta ao Brasil -, não tenho ainda algo claro, bem definido. Penso que venho movido pela fortuna íntima que me faz pertencer a esta terra e dela jamais prescindir, desejando – talvez iludido pela prepotência – oferecer algo que ajude a todos nós.

Sergio de Souza: No Brasil, nas redes sociais, têm feito sucesso trabalhos que lidam com a “vida humana” (vocação, formação da personalidade, psicologia e espirtualidade, relações interpessoais, etc) como o seu, a “terapia de guerrilha” (Ítalo Marsili) e “Os Náufragos” (Francisco Escorsim, Jota Borgonhoni). Por que você acha que as pessoas procuram esse tipo de trabalho?

Depois de alguns anos trabalhando com esses temas e no atendimento de pessoas em conversas particulares, posso afirmar que estamos mesmo perdidos. Em relação a quê? Às origens. Sempre que alguém se perde, perde-se em relação a um ponto de origem ou destino, uma referência que tem dentro de si. Para mim, estamos vivendo o tempo de uma crise sem precedentes na história, em que o hiato entre ser e dever-ser nunca foi tão grande. Ou seja: somos tão incapazes humanamente, atualizamos tão pouco das nossas potências, que aquilo que apresentamos ao mundo é, no mais das vezes, risível e, por esta mesma razão, sofrível. Porque sofremos essa diminuição do ser, acabamos por mediocrizar as imagens do dever-ser a fim de torna-las mais palatáveis, menos angustiantes. Os modelos de vida, hoje, não são modelares numa visão mais rigorosa – algo que nos remetesse à aretê dos gregos. São, via de regra, os exemplos de vida que admitimos como possíveis para nós, apequenados por tantas e tantas razões que não cabem aqui. Portanto, ainda que eu reconheça as diferenças entre os trabalhos e respectivos professores mencionados na pergunta, vejo este mesmo denominador comum no interesse geral demonstrado pelo que fazemos nas redes: “ensinem-me a falar, a conviver, a me governar”.

Sergio de Souza: Você fala muito sobre vocação. Você acha, de uma maneira geral, que as pessoas têm discernido com consciência a sua vocação, ou estão, como diz Zeca Pagodinho, adotando o estilo “deixa a vida me levar”? Por que é tão importante tratar deste tema? Guilherme Pedrosa Lima: Como a vocação afetou e afeta sua vida familiar?

Recentemente publiquei no meu blog um texto sobre isso (A angústia do herói). A pergunta sobre a vocação, tal como feita hoje, por nós que estamos por aí, nas redes sociais e gozando dos diferentes níveis de conforto que a boa vida moderna nos oferece, pode dar a impressão de ser geral, comum a todos os brasileiros, por exemplo. Mas não é, acredito. A insistência no tema, minha ou do meu leitor ou ouvinte, é coisa de burguês, de quem tem tempo para ficar tergiversando entre “nasci para dar aulas” ou “nasci para trabalhar como médica”. Acho, na maior parte dos casos, que essa “dúvida” tem fundo falso, no sentido de possível apenas porque sobra tempo para alimentá-la. Pergunto: que tensões vocacionais vive o homem do campo, nascido e crescido ali, a plantar cebolas? Ou o pai de família urbano, motorista de ônibus, que acorda às cinco da manhã e chega à casa ao anoitecer? Na minha opinião, existe uma “bolha”, bastante alimentada pela virtualidade crescente, na qual muitos de nós estamos inseridos e dali tiramos toda a nossa atual leitura de mundo. Confundimos as questões dos nossos amigos de facebook com as das pessoas que estão fora desta rede. Querendo ou não, eu sou um daqueles que atinge esse contingente de usuários, e por isso nutro – quixotescamente – uma preferência e desejo sincero de muito em breve não precisar mais disso para sobreviver financeiramente. Ir ao encontro das pessoas – mesmo que em situações pontuais, como em palestras, atendimentos, formações etc – é muito mais atraente para mim, pelos motivos expostos. Se Bernanos temia morrer como idiota, eu também tenho o medo de me tornar um meme.

Porém, isto não exclui a verdade de que, estes que usam as redes sociais para se comunicar, se formar, se dirigir a quem considerem exemplares, sofrem e precisam de ajuda. Até aqui foi para eles – e para mim, claro – que falei e escrevi.

Quanto à pergunta do Guilherme, só posso dizer que eu “sou” isto que supostamente identifico como vocação para a vida intelectual. Minha mulher e meus filhos convivem com essa realidade inteira, para o bem ou para o mal.

Sergio de Souza: Seu primeiro livro é fruto de uma espécie de Clube de Leitura. Considera esse trabalho – clubes de livros e de leitura – importante? Por que a literatura é importante para o desenvolvimento de uma vida humana mais plena? Pretende algum dia, escrever ficção? Aliás, tem algum livro novo a caminho?

Tudo aquilo que expande a imaginação, dando a ela conteúdos outros que não os que já conhece, pode ser interessante. A arte é, neste sentido, a forma “especial” de dar ao imaginário belas ou relevantes imagens com as quais ele passa a trabalhar junto com a memória e a inteligência. No caso específico da literatura, vejo – na minha vida e na dos meus alunos – um ganho sensível de “humanidade”, pois essas narrativas têm a capacidade de nos dar mais vida, acrescer às experiências pessoais aquelas novas que não temos ou não poderíamos ter nem em mil vidas. O que mais tenho prazer em fazer como professor é justamente o clube do livro, que começou em Curitiba, em 2012, com um pequeno grupo de alunos. De lá pra cá, lemos inúmeros clássicos da literatura brasileira e mundial e, quando parti para Portugal, tornei a proposta virtual (por razões óbvias). O melhor disso tudo é ver quem não tinha o hábito da leitura passar um ano lendo grandes ficções e, ao final, perceber mais de si mesmo e do mundo através das leituras que fez.

Eu sou testemunha, assim, do que a literatura pode fazer para nos inserir num tipo de horizonte mais amplo de vida, mais sensível porque mais real, menos obliterada pela massificação tão comum nos nossos dias – que têm a sina de nos apartar de tudo que importa, engrandece, retira da mediocridade etc.

Quanto aos meus escritos, tenho sim me dedicado à ficção – algumas primeiras tentativas, pouco promissoras. Mas como sou um sujeito de temperamento passional para colérico, durante este ano escrevi duas obras (um romance e uma coletânea de contos), que precisam ser trabalhados antes de conhecerem a luz do dia.

Igor Barbosa: O que você gostaria de aprender e não consegue de jeito nenhum?

Sendo muito sincero, nunca tive o problema de “não conseguir entender tal coisa”. Deus foi generoso comigo, e graças a Ele inteligência é algo que não me falta (pelo menos nunca o percebi, e talvez justamente isto me torne um estúpido). Porém, tenho alguns vícios de alma que me atrapalham nos estudos e um deles é a preguiça. Daí que tenha estudado pouco outras línguas, tendo minhas leituras ficado reduzidas ao espanhol e inglês – e ao francês com alguma dificuldade, sempre com auxílio do dicionário. Por necessitar de afinco e continuidade, vejo ser esta a área na qual tenho sido mais afetado negativamente pela minha preguiça.

Igor Barbosa: Como combater o medo?

Não sei de que tipo de medo especificamente você fala. Os medos espirituais, por exemplo, devem ser mantidos de alguma maneira (o que restaria de nós sem o medo de ir para o inferno?). Porém, há medos de ordem psicológica, existencial, afetiva etc. Esses requerem estratégias específicas que, a meu ver, não devem passar pelo abafamento ou combate direto. A maneira como Perseu venceu Medusa é inspiradora, no caso: “pelas beiradas”, como se diz no interior; sempre com alguma proteção (o escudo do herói) e consciente de um objetivo maior para passar por aquilo (disto advém a força, acredito).

Sergio de Souza: Pode nos explicar, exatamente, o que é bioiatria?

Com 23 anos, tinha algumas dúvidas que eu percebi não terem respostas fáceis: não se tratavam, propriamente, de assuntos terapêuticos, e não enxergava nos poucos livros que havia lido até então, nem nos bons amigos com quem conversava, sinal de resposta ou mesmo consolo. De forma bem simples, eram questões “existenciais”, por assim dizer, que perpassavam minha história, minhas escolhas pessoais, meus pretensos e jovens interesses intelectuais, minha instalação no mundo. Se fosse resumir numa só pergunta, carregava comigo algo do tipo “do que se trata isso tudo que é viver?” Foi então que recebi a indicação da Luciane Amato, que fazia uns atendimentos semanais e parecia ajudar bastante quem a procurava. Sem hesitação, digo que foi das melhores decisões da minha vida: com ela, frente a frente, por alguns anos, lidei com dramas que me incomodavam, acessei pela primeira vez alguns dos grandes nomes da cultura, abri-me para dimensões da vida que me escapavam quase por completo, mergulhei naquilo que socraticamente poderíamos chamar de “conhece-te a ti mesmo”. Passado um tempo, e por intermédio dela, professora e depois amiga, vi a estranha e interessantíssima relação que havia entre minha naturalidade em contar histórias e a necessidade humana de fazê-lo. Percebi que um problema pode ser um problema não só meu, mas de um tipo de gente ou até mesmo de todos os homens, e dediquei-me, em seguida, às leituras de psicologia, história, filosofia, literatura e arte em geral, a fim de tentar somar e dar sentido ao que antes era confuso, esparso, carente de forma biográfica.

Durante os atendimentos semanais, reconheci também meu desejo de dar a outras pessoas essa mesma coisa inominada, indizível, que eu sabia ter recebido das mãos de outrem e que não se encaixava num processo terapêutico, por exemplo, ou, mais moderno, numa espécie de “coaching filosófico”. Era mais do que isso e também isso e mais um pouco do que não se consegue expressar em palavras. Eu apenas via-me, então, através de um espelho novo em que luzes e sombras apresentavam-se em contornos mais definidos, deixando que eu chamasse esse terreno, onde as lutas do mundo se tornavam matéria de colonização subjetiva, de minha província biográfica. A bio-iatria (o termo é extraído de um livro do Julián Marías) é, sem qualquer exatidão de conceito, uma forma de dar a cada um a consciência do próprio mapa pessoal com o qual se conta, de maneira distinta e intransferível, para a tal “busca da felicidade” – é mesmo uma ajuda no alcance da “melhor forma” existencial. Todos os meus alunos, hoje, sabem do que eu estou falando ao responder a esta sua pergunta, ainda que nos faltem palavras para dizê-lo.     

Sergio de Souza: Julian Marías, que, se não me engano, é um de seus “mestres”, é citado também como influência decisiva na vida daqueles que citei acima (Escorsim, Marsili) e também na vida de Olavo de Carvalho (que é outra influência sua). O que esse homem tem? Por que é tão importante? E quais as suas outras grandes influências?

Penso um dia escrever um livro sobre Marías – ou a partir dele. Não seria uma biografia, portanto, nem um resumo das suas principais ideias filosóficas, mas uma tentativa de reflexão que só foi possível depois de seu aparecimento na Espanha. Para mim, ele é o símbolo mais perfeito da simplicidade conjugada com a elegância intelectual: seu modo de ver as coisas e depois revelá-las, sem afetação, com objetividade e ao mesmo tempo um lirismo sem par, torna seus livros e artigos acessíveis, por um lado, e absolutamente verdadeiros e tocantes por outro. Fui mesmo “tocado” pelo seu “Mapa del mundo personal”, primeira obra que li da sua vasta produção e que determinou toda uma parte da minha trajetória pessoal. Acho que nem a Espanha soube, até agora, reconhecer a grandeza desse “filósofo enamorado”: o homem gentil que não escreveu profundas e abstratas teorias, nem nos legou um sistema filosófico, mas tornou mais evidentes algumas realidades humanas que estavam até então opacas. Sua intransigência com a dimensão pessoal, exigindo que tratássemos os dilemas do homem com categorias próprias, jamais “coisificadas”, é comovente e inédito. Felicidade, vocação, destino, biografia, enamoramento, convivência: a todos esses pontos ele iluminou com uma sabedoria simples e radicalmente sincera. Estou convicto de que precisamos exatamente disto no Brasil de agora, e uma parte do meu trabalho é dedicado a não só resgatar seu pensamento, como também adaptá-lo às circunstâncias atuais – exemplo disso é o meu segundo livro, “Por que não somos felizes?”, em que me aproprio do seu monumental “A felicidade humana”.

Entre as minhas outras grandes influências, posso citar o George Steiner (que tem sido bastante influente na minha escrita, especialmente de ensaios). De outra parte, tenho influências não tão marcantes, mas que operam, sim, algum tipo de inclinação dentro de mim – seja pelo modo de ver a vida ou pelo modo de dizê-la. De cabeça, lembro aqui da Virginia Woolf, do Gilberto Freyre, do Henry Miller, do Camilo Castelo Branco, do Flusser, do Ortega y Gasset, do Nelson Rodrigues etc.

Sergio de Souza: Você deu um curso “A filosofia da mulher”. Conta aí um segredo para os homens deixarem as mulheres mais satisfeitas… Por que você acha que nos últimos tempos houve um crescimento tão grande de uma cultura feminista?

Acho a Camille Paglia uma das melhores fontes sociológicas sobre o assunto: ela tem todos os atributos para desmontar mil e uma falácias do atual movimento feminista que, a meu ver, é caracterizado mais pelo “ódio aos homens” do que propriamente pela defesa das mulheres. No sentido mais profundo, essa insatisfação geral das mulheres parece-me essencial: ou seja, vem assim de fábrica. O único tipo de mulher contente que conheci foi a depressiva. De resto, é da sua natureza o descontentamento com pequenas e grandes coisas, o que a torna, num geral, interessada em tudo e por tudo – como se tudo lhe dissesse respeito. Daí que, sendo uma nota essencial da condição sexuada feminina, não me pareça, a grosso modo, um problema (nós homens, ao longo da história, lidamos com isso de muitas maneiras, desde as promessas afetivas feitas em poesia até a conquista de terras em honra da donzela). O que de fato pode ser um grande problema é a subversão desse descontentamento natural: o que antes podia se revelar numa “fome de eternidade”, plenitude, totalidade, hoje se corrompe em necessidade de controle e afetação autoritária (“nós somos fortes como os homens”). Não são, nunca foram e nunca serão (não no sentido que hoje empregam). Por sorte ou bondade divina, sempre haverá um macho sádico para dar umas palmadas numa fêmea histérica (mulher gosta de apanhar, dizia o velho Nelson). Entretanto, sofremos uma redução sensível no número de homens viris que existem por aí e, consequentemente, um crescimento de mulheres empoderadas, essas figuras caricatas que têm poder só no discurso que repetem.

Se tem algo bom que nós homens podemos fazer pelas nossas mulheres – namoradas, esposas, mães, amigas, alunas -, é isto: dirigir-lhes o impulso descontente. Não é à toa que eternidade é substantivo feminino.

Sergio de Souza: Para encerrar, a pergunta que não quer calar: por que não somos felizes?

Porque nunca seremos, não da maneira que nos fizeram acreditar mais recentemente. Para aludir a Julián Marías, o homem não é feliz; tem de ser.

 

Para conhecer mais sobre o trabalho do professor Tiago Amorim acesse o site http://avidahumana.com.br .

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