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Karol Wojtyla e o Teatro Rapsódico

Ingressei na Igreja em novembro de 2012, vinda do ateísmo. Cheguei meio atrasada para pertencer à  geração de João Paulo II, tendo-o conhecido apenas pelas leituras que fiz posteriormente e pelos registros históricos das multidões que ele arrastou.

Mas, se  não cheguei a vê-lo em meio à multidão, celebrando missas, ainda assim fui influenciada por um diferente tipo de reunião que ele organizava antes mesmo de ser padre. Muito menos, Papa.

Como Karol Wojtyla, ele co-fundou o Teatro Rapsódico com seu mentor cênico Mieczyslaw Kotlarczyk. O teatro não era um lugar físico, mas um ato de resistência artística à ocupação comunista na Polônia.

As peças que o Teatro Rapsódico apresentava eram secretas, nas salas das casas das pessoas, por medo de serem presos. Seu set era mínimo (já que ele precisava ser contrabandeado e montado em meio à mobília). Era despojado de tudo, menos do essencial: dizer a verdade, com beleza.

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Mesmo após entrar no seminário (também em segredo), Wojtyla pode ter desistido de atuar, mas continuou a escrever peças no formato despojado que ele e seus amigos haviam criado pela necessidade. Eu consegui uma peça que ele escreveu durante seus tempos de pároco, “A Joalheria”, quando meu marido resolveu encená-la no que se tornou um pequeno espaço fiel à tradição (uma área comum do seu escritório).

No início, lendo a peça, fui postergando por causa do estilo e da linguagem. A peça de Wojtyla é uma meditação sobre o casamento, adequada à minha situação, mas o enredo se desdobra em uma série de enunciados poéticos, não em diálogos naturais ou cenas realistas. Não me lembrou Shakespeare, mas do tempo de faculdade quando um de meus amigos atuou em uma adaptação teatral de The Waste Land, do T.S. Eliot.

Ao invés de um enredo, Wojtyla entregou parábolas. Uma mulher desejando o divórcio tenta vender sua aliança na joalheria que dá título à peça, e o proprietário lhe diz que não pode oferecer nada em troca. Quando pesada individualmente, estando o marido ainda vivo, sua aliança não aparenta peso na balança. Suas alianças deviam estar onde estavam, unidas como sinais físicos da graça sacramental, para ter peso e densidade.

O texto é a prioridade no roteiro de Wojtyla, e assim foi na apresentação que meu marido organizou. Para Wojtyla, o texto poético, elíptico, precisava ser ouvido com clareza para ser compreendido e não deveria ser ofuscado por excesso de gesticulação e preenchimento de espaços. E essa disciplina, como ele a compreendia, era terapêutica para os homens e mulheres que foram arrastados pelo mundo a um frenesi de atividades, longe da ordem adequada do eterno sobre o temporal.

Em “Teatro de Palavra e Gesto”, Wojtyla escreveu, no seu estilo rapsódico:

Homens, atores ou espectadores-ouvintes, libertam-se do exagero importuno do gesto, do ativismo que sobrepuja sua natureza interior, espiritual, no lugar de desenvolvê-la. Assim libertados, tomam posse dessas dimensões que eles não podem alcançar e apreender na vida corrente. Tomar parte em uma performance teatral, quase que apesar de si mesmo, torna-se divertido na medida em que se reconstroem neles as dimensões entre pensamento e gesto que os homens, ao menos subconscientemente, por vezes almejam.

Meu marido e eu não vivemos em uma nação tão opressora e hostil à religião como aquela em que Wojtyla começou a escrever suas peças. Mas, como católicos, nós reconhecemos aquela agitação interna que Wojtyla procurou acalmar, que se alegra na restauração lúdica que o teatro e a poesia podem prover.

Nós reunimos os amigos em casa não para evitar a polícia secreta, mas para combatermos os “nãos” de nossa cultura a uma vida ordenada corretamente (não ao silêncio, não ao descanso, não à temperança) e de nossas próprias tentações e misérias (não à confiança em Deus, não às boas-vindas ao estranho). É uma pequena, mas sincera, resistência.

Ano passado, na festa da Imaculada Conceição, pedimos aos amigos para trazerem suas obras de arte, cantos e poemas marianos favoritos ao nosso apartamento para compartilharmos. Se não foi uma atividade rapsódica, o cenário era certamente rapsódico, com nossos amigos reunidos, recitando seus poemas favoritos, cada um de nós atentos aos textos ricos e densos que se compartilhavam.

Antes das multidões do mundo inteiro, Wojtyla cultivou pequenos oásis de beleza e sanidade, confiando que seus amigos e companheiros atores poderiam trabalhar mesmo sem quase nenhum dos itens mais importantes do teatro, desde que tivessem um texto que fosse belo e verdadeiro para declamar. Com seus escritos, e de tantas outras testemunhas, recorremos sempre a essa expressão simples da nossa esperança.

Tradução: Daniel Araújo

Traduzi esse artigo do Word On Fire para O Camponês: https://www.wordonfire.org/resources/blog/karol-wojtya-and-the-rhapsodic-theater/5933/

A autora é Leah Libresco, autora de Arriving at Amen (2015) e Building the Benedict Option (2018) – esse último sobre formas práticas de se construir os ambientes de vida cristã que Dreher diz serem essenciais, e você vai ver pelo artigo que ela busca isso.

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