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O princípio de inteligibilidade das grandes antinomias da Igreja

por Daniel Fernandes*

Precisamos reencontrar o princípio de inteligibilidade das grandes antinomias da Igreja:

Forças paradoxais operam no discurso teológico. Chesterton sabia disso. Robert Hugh Benson também. Basta a leitura dos Padres gregos para perceber a ênfase explícita nas antinomias e nos paradoxos. Diz o papa São João Paulo II que a noite de Belém traz já consigo um divino “Paradoxo”: “O Filho de Deus, e ao mesmo tempo descendente real de David, nascerá em condições dignas do último pobre.” (João Paulo II, Homilia, 17 de dezembro de 1981). É sabido que o paradoxo acompanha numerosos enunciados do Evangelho, e muitas vezes os mais eloquentes e profundos. (João Paulo II, Audiência Geral, 5 de maio de 1982). Segundo Karl Adam, o próprio “catolicismo é uma reunião de contrastes, porém contraste não é contradição.” (Karl Adam, A essência do catolicismo).

Robert Hugh Benson esclarece que o supremo paradoxo da Encarnação é a chave para todos os paradoxos e dificuldades que apresenta a história da Igreja Católica, que é continuação e a difusão da vida de Cristo sobre a terra. “A Igreja Católica é a união da terra com o Céu, da argila com o fogo.” (Robert Hugh Benson, Paradoxos do Cristianismo). “A Igreja, diz Chesterton, faz conviver o leão com o cordeiro, sem reduzir um ao outro”. É necessário, porém, manter o equilíbrio entre os dois membros da antinomia. A Igreja também tem uma estrutura antinômica como o mistério de Cristo: a antinomia explícita do dogma de Calcedônia. (Herege é aquele que nega um dos pólos da antinomia ou parte de uma delas)

Farol de Sanidade. Pequeno manual da inteligência católica
  • Daniel Fernandes
  • Arminho
  • Capa comum
  • Edition no. 1 (02/21/2019)
  • Português

Se se é forçado a estabelecer distinções, é precisamente para salvaguardar a antinomia, impedindo o espírito humano cair na ‘platitude’ do racionalismo, substituindo a experiência viva por conceitos. A antinomia, pelo contrário, eleva o espírito do reino dos conceitos aos dados concretos da Revelação. Um exemplo dentro dessa tradição são a simultânea incognoscibilidade e cognoscibilidade de Deus. Bem como o exemplo da dupla natureza de Cristo, ao mesmo tempo Deus e homem, objeto da famosa fórmula do Concílio de Calcedônia (mencionado acima), que trata do divino e do humano também unidos sem confusão e sem separação, contrapondo-se, assim, ao Nestorianismo (que separava o humano e o divino) e ao Monofisismo (que privilegiava o divino). Todas essas antinomias, aliás, não por acaso foram objeto de intensas controvérsias teológicas (e políticas), bem como de resoluções dogmáticas e conciliares, que, ao contrário do que supõe o senso-comum, em geral trataram de preservá-las; o que mostra o quão centrais e fundamentais têm sido as antinomias, incrustadas no próprio cerne da tradição da Igreja. A famosa questão da oposição entre graça e obras, que tanto dividiu o Ocidente cristão, também tem uma solução antinômica, bem como a experiência da proximidade (e distância) de Deus ou de sua transcendência e imanência. Muitos aspectos da “teologia do Vaticano II” tem, a meu ver, essa característica “tensional”. Daí seu caráter desconcertante para muitos (deixo de lado outras dificuldades).

Penso que o Concílio Vaticano II redescobriu este solo tensional sobre o qual repousa o mistério da fé. A ideia de teologia “tensional” é a que melhor responde a teologia do Concílio. Na visão conciliar-tensional das coisas, a unidade na diferença é a figura formal da realidade da comunhão. A identidade na alteridade se funda na confissão de fé cristológica segundo o dogma de Calcedônia.

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“A vida não é um ilogismo; todavia, é uma cilada para os lógicos.” (Chesterton, Ortodoxia)

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*Daniel Fernandes é Professor de História e Filosofia do Estado do Rio de Janeiro e autor do livro “Farol de Sanidade”, recém editado pela Editora Arminho, que pode ser adquirido no link ao longo do texto.

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