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O recém nascido e a flor branca: Santa Hildegarda e o Natal

por Leandro Cunha*

A cena do recém-nascido envolvido em faixas (Lc 2,1-14) permanece emblemática. Onde, afinal, repousa a Glória? Que montes dão término ao resplendor divino, dando vez à noite sem brilho? Qual é o fulgor do drama divino ao qual acorrem tão somente incautos pastores? A mística por trás da carestia desta cena evoca, entretanto, o mais alto grau da mensagem evangélica, oculto aos sábios e entendidos e revelado aos pequeninos (Mt 11,25).

Notável é a descrição visionária que a ‘sibila cristã’, ‘profetisa do Reno’, Santa Hildegarda traz a respeito da criação do homem a partir da fulgurosa luz de Deus. Segundo a abadessa de Bingen, no Livro Segundo do Scivias, Deus, como “fogo ardente, incompreensível, inextinguível, inteiramente vivo e inteiramente Vida” imbuído de sua Infinita Palavra como “chama em si da cor do céu, que ardia abrasadoramente com um suave respiro, e que era tão inseparável dentro do fogo ardente como as vísceras o são dentro de um ser humano” estende-se, por meio de Cristo, “a um montículo de lama que jaz no fundo da atmosfera” aquecendo-o – oferecendo-lhe “robusto calor” e nutrindo-o de umidade, como uma mãe lactante a seus filhos – e erguendo-o como um ser humano.

Feito o homem, Deus, fogo ardente, ofereceu-lhe por meio de sua Palavra, chama abrasadora, “uma flor branca, que pendia daquela chama, tal como o orvalho pendura-se na relva”. Desta flor, continua a Santa, “seu perfume chegou às narinas do humano, mas ele não a saboreou com sua boca, nem a tocou com suas mãos” recusando-a, portanto, e, virando-lhe as costas, pendendo “na mais espessa escuridão, da qual ele não podia tirar a si mesmo”. Da flor, diz a santa, exprime-se o “doce preceito da obediência” sobre o qual o homem “tenta conhecer a sabedoria da Lei com sua inteligência, como se fosse com o nariz, mas não a digeriu perfeitamente colocando-a na boca, nem a cumpriu em completa bem-aventurança mediante a obra de suas mãos”. Assim, recusada a oferta divina, “o poder da morte no mundo estava crescendo constantemente pela difusão da maldade, e o conhecimento humano enredou-se em muitos vícios no horror do pecado ebuliente e mal cheiroso”. A Encarnação, portanto, se dá neste cenário e aqui desponta a relevância deste conteúdo na véspera da celebração do Natal do Senhor.

O acontecimento da Encarnação do Filho como um verdadeiro “mistério do início”, conforme já dissera Inácio de Antioquia naquilo que nomeou como os mistérios retumbantes realizados no silêncio de Deus, é escondimento. O princípio sobre o qual está erguida toda a cena do menino envolto em faixas é abnegação: não havia lugar – e assim permanecerá, padecendo o Filho do Homem da falta de um lugar para recostar a cabeça (Mt 8,20). Para além deste cenário, o chamado recebido pelo Filho é de assumir aquela natureza encontrada deformada pelo pecado (cf. Rm 8,3; somada à σὰρξ[carne] de Jo 1,14) apresentando-se, num aparente paradoxo, o poder de Deus através do esvaziamento (Fl 2,7). Em que, dito isto, aproximam-se a visão gloriosa da santa à imagem paupérrima da Encarnação? O elemento em comum, ao que parece, pousa sobre a flor branca.

Deste tema da obediência, o ponto fulcral da existência do homem – e seu motivo de perdição –, depreende-se a mensagem do presépio, oculta aos olhares menos atentos. O drama expresso pelo recém-nascido e suas faixas é o avesso da opção adâmica, na variedade do que ela significa. Ao humano que recusa a obediência, no afã da falsa liberdade, resta a mais espessa escuridão. Não há escapatória ao homem feito desta lama dos confins da atmosfera senão corresponder a envergadura que lhe fora emprestada pelo Sopro. Tampouco há como passar ao largo desta Chama que dá cor às alturas celestes e não obter senão desalento, frio e trevas.

O mistério do Natal, portanto, é encontrar-se com o Novo Homem que, não satisfeito em não dar de ombros à doce voz do Criador, abraça-a em seu odor, seu sabor, sua textura e seus espinhos. Ide ao menino, contemplai sua realeza (Is 9,5) e deixai-vos fascinar pelo esplendor de seu escondimento.

*Leandro Cunha é Bacharel em Teologia

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