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Pesadelo delicioso do tradicionalismo

 Jessé de Almeida Primo*

 

Lendo Submissão, de Houellebecq, pensei imediatamente no que Simone Weil disse sobre “estar no inferno é acreditar, por engano, que se está no Céu”. Em tempo, não sei a quem pertence a tradução desse trecho. Pensei também no que Cristo disse a respeito da porta estreita para o Céu e da porta larga para o Inferno.

O grupo AC/DC, no seu clássico, usa um símile parecido com o usado por Cristo: do caminho para o Inferno como uma “highway”.

Há também um ditado popular segundo o qual “para baixo todo santo ajuda”…

Nessa distopia, em que o centro da trama é um ambiente universitário, vemos a Europa, mais precisamente a França, em processo de islamização. Pelas vias democráticas o partido Fraternidade Muçulmana ganha as eleições e estabelece a xaria, mas por meios sutis, como se o que propusessem não entrasse em choque com tudo aquilo a que o homem europeu está acostumado. Assim, tudo que a Fraternidade propõe é apresentado como algo há muito buscado e perfeitamente compatível com a cultura que querem dobrar às leis corânicas e, num golpe de gênio em que se usam sentimentos e motivações tão diferentes quanto antagônicas entre si, alcança seu objetivo e ainda consegue incorporar alguns países do Oriente Médio à União Européia.

Se a personagem principal, o narrador, é a personificação da França atual, ao menos de sua parte mais visível, podemos dizer que a Fraternidade Muçulmana encontrou uma das brechas de que precisava e por meio de promessas de prazeres infinitos, no caso dessa personagem, e manutenção da tradição e a volta à espiritualização contra o mundo moderno, no caso do reitor Ridiger (um guenoniano-nietzschiano), transformou de vez o país de Napoleão, como diria Bruno Tolentino, num “palácio aritmético” ou, por outra, num inferno.

Não pensem, porém, que se trata do inferno dantesco, escaldado de chamas etc, onde um bocado de diabinhos e diabetes fazem dancinhas, mas de uma incômoda sensação de ordem, de segurança bem como da liberdade para usufruir de prazeres: os professores universitários se vêem encorajados a desposar de suas alunas e de tantas que seu salário permitir; ademais, vê-se a diminuição significativa da delinqüência que há décadas assolava aquele país e assim a ordem se restabelece e o experimento Ludovico, utilizado em Alex do romance Laranja mecânica, canta vitória.

Eu ter citado Bruno Tolentino não se deve tão-somente ao fato de que lhe aprecio muito a poesia e dessa maneira espero encaixá-lo num maior número de reflexões possível, mas sim porque o pesadelo que descreveu em sua obra poética tem como característica principal a falta da “rugosidade do real”, um andar “num vazio sempre alheio, entre noções apenas” .

A vida sexual do narrador, para ilustrar o que foi dito, é menos intensa que extensa. Se por um lado não é um impotente, por outro não sente prazer e ainda assim, principalmente com a partida de sua aluna-amante para Israel — após seus pais, judeus, perceberem que a Europa lhes seria outra vez algoz — vê-se em busca de garotas de programa. Embora saiba de antemão que não sentirá prazer, não consegue viver sem isso, algo talvez semelhante ao sentimento de alguém que vai a um grande baile a que falta música ao ritmo da qual dançar; mas não consegue não dançar. Mais uma vez com Bruno Tolentino, “ora o gozo era suplício,/ ora o suplício mesmo era dileto…”

É de se notar que os pais dessa aluna preferiram se mudar para um país em guerra que viver sob a paz mecânica proporcionada pelo islã.

Diante de promessas acerca de coisas tão antagônicas, como prometer um paraíso de prazeres e ao mesmo tempo assumir um compromisso com a ordem e com a tradição, vêm-me à memória as tentações às quais Cristo foi submetido no deserto que envolviam a gula, o poder, os prazeres em geral e como essas eram apresentadas como legitimadas por passagens bíblicas(São Lucas, 4, 1-13), o que levou Bento XVI a dizer em algum lugar que o diabo é teólogo. Não é notável nesse episódio que Cristo jejuando havia quarenta dias e quarenta noites, na hostilidade do deserto, não estivesse nenhum pouco incomodado com essa rugosidade, mas sim o diabo? Não foi justamente um traidor, a tentá-Lo contra o plano de salvação, que O admoestou por permitir que Maria, irmã de Marta, usasse Nele produtos caros cujos valores apurados serviriam para salvar os pobres? A seguir o mesmo caminho,o diabo e certo tradicionalismo, ou por outra, o modernismo, desesperam-se diante dessa falta de ordem e, num satânico desprezo hierárquico, mas sem descurar do critério de seletividade, lançam contra o Papa as piores ofensas por este não apresentar uma estampa conservadora que realize a volta a uma Idade Média “como idéia” ou a um cristianismo primitivo imaculado, como se o primeiro Papa não tivesse negado Cristo por três vezes e antes disso Lhe tivesse dito o que hoje chamamos de heresia. Fôramos conduzidos pelo raciocínio apresentado, a barca de Pedro não é bem conduzida desde o mesmo São Pedro.

E foi no vácuo criado por este pensamento tradicionalista que apersonagem Mohammed Ben Abbes disse, para seu eleitorado francês ávido de prazeres e de uma guerra contra o “mvndo moderno”, as seguintes palavras:

 

Mas era preciso admitir… que os tempos tinham mudado. Era cada vez mais frequente que as famílias — fossem judias, cristãs ou muçulmanas desejassem para seus filhos uma educação que não se limitasse à transmissão de conhecimentos, mas integrasse uma formação espiritual correspondendo à sua tradição.

 

Como é relembrado no episódio da tentação no deserto a poucas linhas mencionado, o chamado pensamento tradicionalista, que é, repito, uma face do modernismo ou, como nos lembra o papa Pio X, o qual se representa pelos que estão “não já fora, mas dentro da Igreja”, acaba por servir para qualquer coisa. Esclareço que o santo padre não tinha, suponho, esses tradicionalistas, também apelidados de rad-trads, em mente quando compôs a Pascendi. Por outro lado,ao falar daqueles cujas “doutrinas são formadas numa escola de desprezo a toda autoridade e a todo freio” e  que  “confiados em uma consciência falsa, persuadem-se de que é amor de verdade o que não passa de soberba e obstinação”, não há como não incluí-los, uma vez que só aparentemente assentam suas convicções na Igreja, quando na verdade dela se afastam a pretexto de corrigi-la. Baralhando, assim, os princípios hierárquicos ou ignorando-os, a verdade deixa de ser o que é revelado por Deus pela Igreja para se tornar o que eles mesmos entendem como verdade ou, mais uma vez com o santo padre, “a sua explicação se deve achar mesmo na vida do homem”. Dessa maneira, retomando aqui o contexto apresentado pelo romance,o envolvimento hedonista com várias mulheres provavelmente não é tradicional, mas a poligamia sem dúvida o é, como o provam algumas grandes tradições religiosas, entre as quais o antigo judaísmo e o próprio islamismo.  Enfim, esse modernismo trajado com a estampa cruzadista se faz em cima de elementos que se identificam com a tradição, mas que em verdade se opõem a ela ou lhe são alheias, o que aliás é muito bem ilustrada por esta passagem profética do Romance da Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, e com a qual me despeço:

 

De modo semelhante, tomavam, furiosamente, partido em tudo. A sociologia era da Esquerda, e a literatura fortemente suspeita de direitismo…. A briga era tão profunda , ia tão longe que , apesar de ser ateu, o Professor Clemente esquecia momentaneamente seu ateísmo para tomar partido no seio da própria Trindade. Dizia ele que detestava o Pai, que sendo o Deus do deserto, da violência, dos castigos(…) era visivelmente da Direita; o que imediatamente fazia com que Samuel, apesar de seu Catolicismo ferrenho(…) tomasse partido contra o Filho, que era “claramente demagogo, favorável à plebe e instigador das lutas de classe.

 

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Jessé de Almeida Primo é ensaísta e autor de A Natureza da Poesia: quem vai ficar com as musas, Ed. Tulle, 2006.

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