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Por que Thomas Merton foi uma grande influência espiritual no Ocidente?

Thomas Merton foi um monge trapista franco-americano nascido em Prades (França), que viveu sua juventude e descobriu sua vocação nos Estados Unidos, viveu no Mosteiro de Nossa Senhora de Gethsemani, no Kertucky, e faleceu eletrocutado em um acidente com um ventilador em Bangcoc na Tailândia, onde estava para ministrar uma série de conferências.

Merton foi um dos mais prolíficos e influentes escritores espirituais do século XX, tendo escrito mais de setenta livros, entre ensaios, poemas, biografias, estudos sobre monaquismo e religião comparada e sua especialidade, cartas, diários e escritos autobiográficos. Merton foi, por excelência, um memorialista e um registrador de suas mais vivas impressões sobre o seu tempo (não à toa, chamou-se a si mesmo de “um espectador culpado”). Sua autobiografia “A Montanha dos Sete Patamares” foi um best-seller, que influenciou a juventude de seu tempo, causando uma grande onda de vocações sacerdotais e monásticas a ponto dos mosteiros trapistas começarem a recusar vocações por conta de superlotação. “A Montanha dos Sete Patamares” causou tanto impacto na juventude norte-americana que é comparado por alguns críticos a outros clássicos notórios da juventude, como “On the Road”, de Jack Kerouac e “O apanhador no campo de centeio”, de J. D. Salinger. A fama de Merton espalhou-se pelo mundo todo, seus livros venderam aos milhares e influenciaram multidões de pessoas interessadas pela vida espiritual no mundo inteiro. Todo mundo queria saber um pouco daquele jovem tão típico de seu tempo que largou tudo para se instalar num mosteiro no interior de um estado rural americano para buscar a Deus.

Qual o segredo de Thomas Merton?

Merton, em primeiro lugar, é um escritor, um poeta e um artista da palavra. Antes de escrever ensaios áridos sobre a vida espiritual, criou autênticas obras literárias, cheias de frescor e eloquência, destilando uma sabedoria que Merton, com sua curiosidade ilimitada soube colher nos autores mais profundos das tradições espirituais, nos clássicos da literatura e nos pensadores contemporâneos, com os quais mantinha intensa correspondência e diálogo. Merton é um nítido representante daquilo que Von Balthasar chamou de “via pulchritudinis” (via da beleza): seus escritos exalam poesia e seduzem pela graça. O crítico literário Luiz Costa Lima conta que desde criança sentia-se vocacionado ao estudo da matemática, mas que, aos 16 anos, caiu-lhe nas mãos “A Montanha dos Sete Patamares” (que de tão bem escrito, o confundiu, fazendo achar que era um romance) e o “converteu” não à religião, mas à literatura. A beleza da escrita de Merton provocou muitas mudanças de rota.

Seus livros são profundamente existenciais, partindo de sua experiência pessoal e fazendo com que o leitor mergulhe nas grandes questões filosóficas e espirituais do passado e do seu tempo (um dos temas centrais de Merton era a relação entre contemplação e a vida ativa no mundo). Neste sentido, o testemunho do Bispo Robert Barron é muito categórico:

“Em espiritualidade, eu diria que ‘A Montanha dos Sete Patamares’, de Thomas Merton é um livro que fez uma enorme diferença em minha vida. Acho que é provavelmente o maior escrito espiritual do século XX e continua ainda hoje uma história profundamente cativante; ainda é um livro que te faz atravessar uma noite lendo… A autobiografia de Thomas Merton é maravilhosamente sedutora e saborosa… Basicamente trata-se da história da mudança de um homem do mundo em todos os sentidos para um monge trapista… Embora na época a filosofia e a teologia contidas no livro estivessem acima das minhas capacidades, eu estava totalmente capturado pelo drama e romance da história de Merton, que era essencialmente a história de um homem se apaixonando por Deus, pela qual fui cativado todo aquele entusiasmo adolescente (eu tinha 16 anos). O livro foi muito bem recebido quando apareceu em 1948. Fulton Sheen escreveu uma sinopse na capa que dizia: “esta é a versão contemporânea das ‘Confissões’ de Agostinho”. Tanto Evelyn Waugh quanto Graham Greene, dois dos maiores romancistas católicos do século XX o elogiaram tremendamente e ele também foi responsável, interessantemente, por um enorme renascimento da vida monástica na América. As pessoas invadiram os mosteiros neste período pós-guerra e muitos sob a influência do livro de Merton…”.

Merton foi um arauto da vida do espírito, e assim como em sua própria experiência, descobriu a arte, a filosofia, a literatura e os pensadores e escritores que o conduziram para os mais altos patamares do espírito, assim também abriu portas, introduzindo inúmeros jovens na vida intelectual e nos caminhos da “grande conversação”. Quantos não foram os que descobriram os Padres do Deserto, os místicos carmelitas, e os grandes teólogos contemporâneos, como Von Balthasar e Danielou, pelas mãos de Merton? Merton foi uma “alma aberta” (Bergson), sempre disposto a perscrutar e a assimilar tudo o que lhe despertava o interesse, foi um mestre do discernimento espiritual. Sua curiosidade não conhecia limites e estudava sobre tudo o que lhe caía nas mãos. Correspondeu-se com escritores beats, literatos, monges de outras tradições, filósofos, teólogos, poetas, artistas, cantores pop e romancistas. Recebia visitas de personagens tão díspares quanto a cantora folk Joan Baez (namorada de Bob Dylan), o filósofo católico Jacques Maritain, ativistas sociais como Daniel Berrigan, o romancista Evelyn Waugh e até mesmo Martin Luther King havia planejado um retiro em Gethsemani alguns dias antes de sua morte. Merton mostrou para muitos católicos que existia todo um mundo cultural que podia ser “recapitulado em Cristo” e mostrou para muitos que ainda não conheciam a Cristo as riquezas espirituais que existiam na Igreja (cujo maior tesouro é o próprio Cristo).

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Merton foi um mestre muito humano. Nunca teve medo de mostrar suas fraquezas e seus limites. Não adotou um tom professoral e em seu entorno sempre se respirou a atmosfera da mais arrebatadora sinceridade. Em seus diários, não hesitou em demonstrar suas muitas dificuldades para se adaptar à vida monástica, às regras e não escondeu seus embates com os superiores. Merton, em certa ocasião, quebrou o celibato, vivendo um pequeno romance com uma enfermeira quando se retirou do mosteiro para uma cirurgia. Arrependeu-se da “derrapada”  e disse que o episódio só serviu para reafirmar sua vocação ao sacerdócio e à vida monástica. Mostrou assim, que após as crises e quedas, existem oportunidades para levantar e continuar caminhando.

Merton não foi perfeito, nem mesmo deve ser declarado santo  (ele mesmo tinha consciência disso quando pediu que os diários que continham as revelações sobre suas crises só fossem publicados 25 anos após sua morte), mas foi um mestre espiritual cujas vida e obra  causou – e causa – profundo impacto na vida de muitos crentes e não-crentes.

É impossível contar a história espiritual do século XX — e por que  não, dos nossos tempos? — sem incluir o nome de Thomas Merton.

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