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Regra de Vida de Raïssa Maritain

No ano de 1923, Raïssa (Maritain) compôs uma pequenina Regra de Vida. Tirou três cópias com a própria mão – uma para cada um de nós (Jacques, Raïssa e Vera) – sob a forma de um caderninho para ser colocado dentro do missal ou do diurnal. Conservo-o no meu “Livro de Horas”. Transcrevo aqui esta “Regra de Vida”. (Jaques Maritain)

***

Ave Maria                                                 Pax                                                              O Sapientia

Tudo aceitar vindo de Deus
Tudo fazer por Deus
Tudo oferecer a Deus.

E procurar com ardor
A perfeição da Caridade
e o amor da Cruz.

I

“Vacate et videte quantiam ego sum Deus”.
Todos os dias daremos à
oração o tempo combinado
com sincera humildade
num pacífico abandono
à ação divina, todos
entregues pelo amor ao Amor…

Depois, quer no repouso
quer no trabalho, quer
no silêncio ou quer ainda no
bulício, estaremos perto
de Deus pela oração incessante
sem no entanto desprezar o
dever presente. Pois assim como
diz o Padre Caussade,
os deveres de cada instante,
nas suas obscuras aparências,
contém a verdade do divino
Querer, e são como os
sacramentos do momento presente.

O trabalho será frequentemente
interrompido por orações
jaculatórias. E buscar-se-á
a solidão.

II

“Amarás o teu próximo
como a ti mesmo”. “Ominis
“homo mendax.”
O próximo nos levará
à abnegação e à doçura,
mas também à sinceridade e à firmeza.
Não se concederá absolutamente nada
ao espírito do mundo,
nem para agradar
nem por falsa humildade.
Guardando o coração para Deus só,
na pureza e na paz. Lembraremos
o menor benefício; e ter-se-á
particular gratidão
pelas pessoas que se ocupam
dos trabalhos de casa.
Não se queixar jamais
de nada à mesa. Manter
a disposição interior
de vir em auxílio do próximo
segundo todas as suas necessidades,
sem nenhum temor das opiniões do homem.

Mas excluir-se-á tudo que
não for conforme
a ordem da caridade.
Guardar-se de todo empreendimento
exterior que possa desviar da
vida de oração e do recolhimento.
Meter-se o menos possível
nos negócios dos outros, e
examinar todas as coisas
sem deixar-se obscurecer
no seu próprio julgamento
por timidez alguma.

III

“Jesu mitis et humilis corde
Fac cor nostrum secundum
Cor tuum.”
Vivendo no mundo,
privados daqueles meios que os
religiosos encontram na sua
regra e nos seus votos, – privados
também, por disposição
especial da divina
Providência, da pobreza
na qual por tanto tempo
vivemos, e  que
Deus ama, – devemos pelo
fervor interior
e pela pobreza de espírito
compensar o que nos falta
quanto ao apoio exterior.
Esforçar-se-há, pois, a
praticar uma profunda e
universal humildade, a dar
incessantes ações de graças
por tantos benefícios recebidos,
a viver numa confiança
muito entregue à
misericórdia de Deus. Ser
acolhedores a todas as pessoas.

Abster-nos de julgar o
íntimo das almas, e procurar dilatar
o nosso coração para
admirar sempre, e para
compreender tanto quanto
possível a liberdade, a
largueza e a variedade
dos caminhos de Deus.

(Tradução de Dom Marcos Barbosa O.S.B.)

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