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São Francisco de Sales por Francisco Escorsim

Eu era daqueles católicos carecendo de conversão, mesmo sendo católico. Brasileiro, enfim. Em outra oportunidade contarei a história toda. Durante esse processo, um amigo, passando por algo semelhante, sugeriu-me lesse Filotéia, a famosa obra do santo, sua Introdução à Vida Devota voltada para leigos, algo raro à época em que foi escrito. Lá fui eu.

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Filoteia: ou introdução à vida devota - Edição de Bolso
  • São Francisco de Sales
  • Publisher: Vozes De Bolso
  • Edition no. 1 (08/23/2013)
  • Capa comum: 376 pages

Na primeira meditação sugerida, sobre a criação do homem, eu a fazia sentado na cozinha, logo depois de tomar o café da manhã. Acho era domingo. Pela porta, enxergava meus filhos brincando na sala. Meu olhar lá ficou, deixando-se conduzir, a meditação junto. A certa altura, uma certeza: “o que quer façam da vida, o que quer se tornem, amarei-os incondicionalmente. Santos ou psicopatas, amarei-os.” Aquilo me comoveu de súbito. Porque entendi minha criação no mesmo ato. Eu experimentava o amor de Deus, não como quem é amado, mas como quem foi feito à Sua imagem e semelhança, ou seja, para amar também, para amar assim, ao máximo, sem medida. “Considera o ser que Deus te deu, porque é o primeiro do mundo visível, capaz de viver eternamente e de se unir perfeitamente à sua divina Majestade.” (ponto 3, desta meditação)

Mas, é claro, se eu era capaz de amor tamanho era só porque Ele me amava assim, amava mais, amava antes, ama e amará sempre. O que quer que eu tivesse feito ou viesse a fazer, Ele me amaria até o meu último suspiro; Ele seria, é, capaz de perdoar tudo, mas TUDO. Foi a segunda certeza. Não era pouca coisa para uma primeira meditação.

Sempre sofri para ler escritos de santos, irritava-me aquela babação de ovo para com Deus, a cada três linhas vinha um “Ó, meu Deus, só Tu podes! etc….” Achava ok, legal, entendi, mas, “vamos ao que interessa, por favor”. Eu disse que precisava de conversão, não disse? Enfim. Eis que, então, eu não queria ler mais nada, queria só mergulhar em interjeições e pontos de exclamação assim, mais nada: “Ah! Ele me amou! Repito: Ele me amou a mim. Sim, a mim mesmo, assim como sou. Ele entregou-se à Paixão por mim.” (escrito atribuído a São Francisco de Sales, mas não conferi, porque tanto faz)

Quanto mais conheço da vida de São Francisco de Sales, mais entendo por quê Deus o escolheu para ser meu Virgílio. São Francisco é conhecido por recomendar a caridade acima da penitência. Eu entendo isso, hoje. Para orgulhosos como eu a caridade é a maior penitência. Dizem que seu lema era: “Tudo por amor, nada à força”. Mas não pensem fosse homem manso e calmo. Pelo contrário, era de temperamento forte, irascível. Lutou a vida toda contra si. Uma história famosa é a da descoberta de que a parte debaixo de sua escrivaninha estava toda arranhada por suas unhas, nas tentativas de conter a ira. Eu, piá de prédio, arranco a pele em torno das unhas até hoje. Mas para os outros ele não era nada disso. Era doce, bondoso, de compaixão inigualável, a ponto de São Vicente de Paulo, que era dirigido espiritualmente por São Francisco de Sales, chegar a dizer: “Ó meu Deus, se Francisco de Sales é tão amável, como sereis Vós?”. Eis o santo que marcou minha vida.

*Francisco Escorsim é professor e advogado, um dos criadores do projeto Os Náufragos.

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