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Séries, filmes, discos, músicas e livros que marcaram o ano do Camponês.

SÉRIES:

“Handmaid´s Tale”

Fargo (Noah Hawley)— Assisti às três temporadas este ano. O que me impressionou em Fargo é o quanto, sem panfletagem, a série pode ser pedagógica em termos de imaginação moral. Lá estão os “anjos” ( na figura daqueles policiais protagonistas que tentam desvendar os crimes) — o bem é sempre sutil e sempre se revela no seio de uma família — e a presença explícita do Mal, naqueles macabros personagens que parecem incorporar o capiroto…

Mas o que me chama a atenção é que, no meio deste “embate cósmico”, estão as almas, e muitas que se deixam levar pela mediocridade, os irresolutos, aqueles que precisam decidir, assumir seu destino e sua responsabilidade e não o fazem, os habitantes do purgatório (entre os quais tantas vezes me incluo..)… São os “bonzinhos”, personagens que apresentam uma chama de bondade, mas que nunca se deixam incendiar, como Lester Nygaard na primeira temporada e o açougueiro na segunda… Ficam patinando em sua indecisão, entregam-se nas mãos do destino e são arrastados para o inferno e acabam corrompidos pelo diabo. Se Leon Bloy dizia que é preciso um passo além da mediocridade para ser santo, Fargo mostra que basta um passo atrás para se corromper… No cosmos de Fargo as almas que ficam flutuando sem uma âncora são tragadas pelas correntezas diabólicas. Se a série é uma poderosa reflexão sobre o Mal (e como me disse o amigo Karleno Márcio Bocarro, também contém uma excelente análise sobre a natureza do Bem) não deixa de ser uma profunda meditação sobre a mediocridade. Não à toa, enquanto assistia à primeira temporada, duas passagens bíblicas insistiam em retornar à minha mente:

“Conheço as tuas obras: não és nem frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente! Mas, como és morno, nem frio nem quente, vou vomitar-te.” (Ap 3,16–17)

“…o homem que vacila assemelha-se à onda do mar, levantada pelo vento e agitada de um lado para o outro. Não pense, portanto, tal homem que alcançará alguma coisa do Senhor, pois é um homem irresoluto, inconstante em todo o seu proceder.” (São Tiago 1,6–8)

Acho que o Dionisius Amendola acerta em cheio quando a chama de “série bíblica”.

Ps.: A terceira temporada confirma: o “bonzinho” só se ferra; o medíocre na bondade é arrastado para o inferno; quem se contenta com a bondade natural que sente em si, mas não se dá ao trabalho de se tornar autor desta bondade, torna-se presa fácil do diabo.

A Louva-a-Deus ( Alice Chegaray-Breugnot, Grégoire Demaison, Nicolas Jean)— Enquanto o Brasil assistia de babador as supostas relações incestuosas da família Lima no Big Brother , a série francesa da Netflix mostrava que as relações familiares podem ser muito mais complexas e assustadoras do que falsos escândalo de plástico.

Wild, Wild Country (Maclain & Chaplain Way)— Série documental assustadora sobre a seita Rajneesh e seu guru Osho. Uma das melhores coisas já produzidas pela Netflix.

Estudar o fenômeno de dominação mental das seitas deve ajudar muito no entendimento, por exemplo, da hipnose coletiva que os movimentos de ideológicos usaram para criar personagens como Mujica, Che, Hitler, Fidel e Lula.

The Leftovers (Damon Lindelof e Tom Perrotta) A última temporada foi em 2017, mas assisti durante o Carnaval deste ano. Existem obras sobre as quais é necessário calar-se. Sobre “The Leftovers”, só digo: existem vários apocalipses, prepare-se para o seu.

A cena de Kevin Garvey Jr. (Justin Theroux) cantando “Homeward Bound” é desde já uma das coisas mais comoventes da história da televisão.

Doctor Foster (Mike Bartlett) — Poucas vezes uma obra conseguiu transportar para as telas o inferno do adultério. Se estiver deprimido, não assista.

Handmaid’s Tale (Bruce Miller) — A série do ano. Não é possível passar pelo mundo de June e não perceber que ele é o nosso mundo e que o perigo do totalitarismo está a um piscar de olhos (e não é um ataque feminista ao “fundamentalismo cristão”, ver a entrevista de Dionisius Amendola sobre aspectos políticos da série aqui: https://faustomag.com/dionisius-amendola-handmaids-tale-busca-compreender-a-condicao-humana-em-sua-plenitude/ ). A atuação de Elizabeth Moss é redentora. O tal “mundo” de June está todo nos olhares e nas expressões — do corpo, do rosto, do ser — de Moss. Não é uma atuação, é uma encarnação. Uma atriz em estado de graça. Nada nesta série é óbvio — o simbolismo, a fotografia, as cores, as atuações, as tomadas, o roteiro. É uma experiência da condição humana na sua condição mais abissal. E poucos personagens tem a capacidade de prosseguir e permanecer quanto June Osborne.

Maniac (Cary Fukunaga)— Uma série com os estranhismos de Spike Jonze, idealizada por Cary Fukunaga (True Detective, Beasts of No Nation) e Patrick Somerville (The Leftovers) e que trata de um dos maiores temas de todos os tempos (pouquíssimo explorado na tv e no cinema): o mergulho do indivíduo na consciência individual, que é a premissa da “vida examinada”. Imprescindível.

LegionFX (Noah Hawley)— Noah Hawley, aqui numa pegada totalmente diversa de “Fargo”, mostra que tem o toque do gênio. Uma série de herói atípica, que viaja mais para dentro do que para fora do mundo dos personagens, explorando os limites do trauma, da depressão e dos transtornos mentais. Incomoda, porque a angústia que assistimos na história de nossos heróis é a mesma que vemos em nossas famílias, ruas e escritórios.

Demolidor (Drew Goddard)— Seu catolicismo explícito, numa era em que séries como “O Mundo Sombrio de Sabrina” mostram o satanismo como algo tão normal quanto comprar pão de queijo na esquina, é imprescindível. Apesar de achar que faltou um pouco de punch ao andamento e à trama, o último episódio, recheado de esperança na possibilidade de redenção, salva o show do Homem Sem Medo.

The Good Place (Michael Schur) — Mais um memento mori. Profundamente filosófico, feito na base do humor, e humor negro. É pra pensar morrendo (de rir).

The sinner (Jessica Biel)—Estão dizendo que a segunda temporada é melhor do que a primeira. Sei não, acho que é mais linear e pop. Melhor, não. Se esta tem Carrie Coon, a primeira tinha mais clima, ambiência e sugestão. Falta, como escrevi ano passado, “a viagem espiritual ao inferno pessoal”, que era o mote da série. Ainda assim, grande temporada.

O Método Kominski (Chuck Lorre) — A passagem do tempo, o envelhecimento, a doença, a morte, as separações, as relações interpessoais e familiares mais complexas e conturbadas e amizade que resiste a tudo isso.

“A balada de Buster Scruggs”

FILMES:

Os Vingadores — Guerra Infinita (Anthony Russo, Joe Russo) — Um blockbuster que é uma meditação sobre a tirania e mentalidade revolucionária (de novo!!!!).

Viva — a vida é uma festa ( Lee Unkrich) — Um memento mori infantil.

Um lugar silencioso (John Krasinski)— O bispo Barron deu a palavra final sobre esse filme. Leia aqui: http://www.vozesdapaz.com.br/mensagens/2018/04/o-filme-religioso-mais-inesperado-de-2018/

O culto (Justin Benson, Aaron Moorhead) — Uma meditação epifânica sobre um possível eterno retorno interdimensional disfarçado de filme sobre seitas.

A balada de Buster Scruggs(Irmãos Coen) — Escrevi um pouco aqui: https://ocampones.org/um-guia-para-refletir-sobre-a-balada-de-buster-scruggs/

Projeto Flórida (Sean S. Baker)— Só pra gente saber que há gente que vive uma vida lascada do outro lado do quarteirão de nossas Disneys reais ou imaginárias. A garotinha Moonee (Brooklynn Prince) dá um verdadeiro show.

Lazzaro Felice (Alice Rohrwacher) — Claro que muita gente da nova direita vai torcer o nariz por causa da crítica — devida, vide os tantos pronunciamentos do Papa Francisco — à selvageria do capitalismo, mas “Lazzaro Felice” é uma fábula quase franciscana sobre a inocência, a pureza, a bondade e a felicidade… Aqui, sim, há um tratado sobre a santidade.

Não perca tempo, assista! É uma obra comovente sem ser sentimentalista demais (o que já é grande coisa, pois é uma película tipicamente italiana…).

São impressionantes a atuação do ator Adriano Tardiolo, que não é um profissional e o próprio personagem Lazzaro (que é uma mistura do Lázaro bíblico com São Francisco de Assis; e como lembrou bem minha amiga Nilza Ferreira, Lazzaro é gêmeo de Santa Bernadete Subirous[aliás, os santos são todos gêmeos uns dos outros porque o são do Cristo)…

O Natal de Ângela (Damien O’Connor) — O curta da Netflix é simplesmente a mais bela fábula de Natal dos últimos tempos.

First Reformed (Paul Schrader) — “Luz de Invermo”, Bergman; “Diário de um Padre”; Bresson, “Ordet”, Dreyer; “Taxi Driver”, Scorsese; “Diários” e “Cartas” de Thomas Merton; “Laudato Si”, Papa Francisco… Crise de fé, a Criação como “Símbolo”; fé, militância e ideologia… Batalha espiritual, carnal vs. espiritual… Tudo isso numa só película. Se existe algum filme do ano de 2018, sem dúvida é este.

LIVROS (lidos, mas necessariamente 2018):

  • “Introdução ao Cristianismo”, Joseph Ratzinger— Quem encontra Cristo, encontra sua doutrina. Em seu mais importante volume teológico (pau a pau com “Jesus de Nazaré”), Ratzinger reflete sobe o Símbolo dos Apóstolos (o Credo). Uma das obras teológicas essenciais do século XX.
  • “Gaudete et Exsultate”, Papa Francisco — Francisco aqui fala de uma “classe média da santidade” e dos “santos ao pé da porta”, atualizando a intuição do Concílio da vocação universal à santidade prevista por Santa Teresinha e São Josemaría Escrivá.
  • “O Romance da Pedra do Reino”, Ariano Suassuna — A obra de Suassuna é considerada por muitos como um dos romances definidores do Brasil e com possibilidades múltiplas de interpretação, mas o que mais me impressionou foi o olhar irônico e implacável sobre a ideologia (ainda hoje, depois de um ano politicamente terrível como 2018, Marco Aurélio Mello, ministro do STF, determina soltura de todos os presos com condenação após 2ª instância…). Publicaremos muito em breve aqui nO Camponês uma meditação mais completa sobre o livro.
  • “Os 4 temperamentos na educação dos filhos”, Ítalo Marsili ( Editora Kírion)— Uma das poucas obras em português sobre este tema tão importante para a educação.
  • “Februarius”, Igor Barbosa (Editora Mondrongo) — Igor Barbosa escreve poemas de tirar o fôlego.
  • “30 poemas sobre o Natal”, Igor Barbosa (Edições O Camponês)— Deveria ser Natal o ano todo para o Igor nos brindar com mais poemas como esses. Uma aula de poesia.
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  • Clarice”, Benjamin Moser — Uma das escritoras do Brasil. E que vida impressionante! Clarice é uma autêntica vocação de humanidade para o Brasil.
  • “O Jogo das Contas de Vidro”, Hermann Hesse — Hesse está sempre comigo. Mas a cada releitura ele cai no meu conceito.
  • “A Vida de Cristo”, Fulton Sheen(Editora Petra) — Em tempos de cristianismo cultural, Fulton Sheen nos oferece um mergulho na vida do Verbo Divino. Uma edição primorosa da Petra.
  • “A noite do confessor”, Thomas Halick(Editora Vozes)— Contra a fé ideológica, uma fé pequena.
  • “Mar a dentro”, Rafael Llano Cifuentes (Editora Quadrante)— Vida e história de um santo que conviveu entre santos. Santos extraordinariamente ordinários. Opus Dei é a encarnação do que São Josemaría Escrivá viu naquele dia.
  • “Os Invernos da Ilha”, Rodrigo Duarte Garcia(Editora Record) — Na produção escrita recente, quando se fala em condição humana, me parece que se evoca tudo o que há de mais baixo no homem — angústia, vício, tristeza, malandragem, precariedade, violência, criando muitas vezes ambientes irrespiráveis, sufocantes; quando, na verdade, há também nobreza, dignidade, alegria, esperança… Quem melhor definiu, de maneira mais realista, a condição humana, localizando-a numa tensão entre os dois polos, foi São Paulo, quando escreve aos romanos: “não faço o bem quero, mas o mal que não quero”. Neste sentido, o romance de Rodrigo Duarte Garcia, “Os invernos da ilha”, é uma lufada de ar fresco. Mas ele é muito mais do que isso. Em breve mais sobre ele n”O Camponês”.

Cat Power

DISCOS:

Lukas Nelson — Lukas Nelson & Promise of the Real” — É de 2017, mas está valendo. Filho de Willie Nelson e membro da atual banda de apoio de Neil Young, “Promisse of the road”, Lukas Nelson não andou longe dos caminhos do pai e do mestre, cometendo um belo disco de country rock.

Van Morrison — “You’re driving me crazy” — Van Morrison, aos 73, lançou seu trigésimo nono álbum de estúdio em 2018 e já está com o próximo, ‘The Prophet Speaks” na agulha para ser colocado na pista, com quatro singles já lançados. Sendo, que desde 2016, com “Keep me Sing”, o bardo tem lançado discos impecáveis, com a tradicional mescla de jazz e r&b (mas VM sempre tem um quê de folk celta). Em 2017 foram dois: “Roll with the punches” e “Versatile”. Este “Youre driving me crazy”, mais jazzístico e com uma versão matadora de “The way that young lovers do” é fenomenal.

Van, the Man, realmente impressiona. O segredo? Amor pela música, sem frescuras e concessões.

Maurício Pereira — Outono no Sudeste” — O ex-Mulheres Negras fez um disco muito bonito. A grande maioria da produção nacional hoje me entedia antes da terceira música, mas Pereira é muito versátil e compõe muito bem.

Tiago Cavaco — “Milagres no Coração” — Um disco de um pastor evangélico (grande pregador) que não é gospel. Só isso já vale mil curtidas.

Kanye West — “ye”— Igor Barbosa venceu. Fez-me ouvir um disco de Kanye West e gostar. Essas músicas ficaram me assombrando por duas semanas.

Johnny Marr — “Call the comet”— Sou um smithsniano suspeito. Para mim, Marr tem o oque de Midas. E fez uma das melhores canções de seu vasto repertório: “Hi hello”.

Cat Power — “The Wanderer” — Não preciso falar nada. Escute. O disco do ano. Talvez o melhor trabalho de Chan Marshall.

Paul McCartney — “Egypt Station”— Mais do mesmo. Tipicamente McCartney. Por isso: excelente.

Paul Simon — “In the Blue Light” — Novas versões de antigas canções com um toque mais jazzístico e sofisticado. Nem sempre dá certo. Mas Paul Simon pode.

The Breeders — “All Nerve”— Voltaram nervosas e melódicas como sempre.

The Beatles — “ White Album Super Deluxe” — Que loucura ter dito que o disco da Cat Power era o disco do ano! Comecei a ouvir rock ouvindo os dedilhados de “Mother’s Nature Son”, as guitarradas e os gritos de “Yer Blues” e “Helter Skelter” e o piano de “Sexy Sadie”. Trinta e poucos anos depois, mais um baú aberto.

Mark Knopfler — “Down the Road Whatever” — Mark Knopfler, faz basicamente a mesma música desde 1976. Aqui temos mais um disco saído de seus dedos mágicos e seu canto dylanesco.

Lukas Nelson — “Forget About Georgia EP”— Lukas Nelson continua — muito bem! — a sua saga neste epêzinho bem bacana.

Stephen Malkmus & the Jicks — “Sparkle Hard” — Canções preguiçosas e desleixadas numa tarde fresca.

Paul Weller—”True Meanings”— Segundo um dos grandes especialistas em Weller, Willian Alves Singh, esse álbum foi a melhor coisa que ele já gravou. Um álbum que já nasceu clássico.

Morrissey, “Low in High School” — 2018 foi o ano em que me reconciliei com a carreira de Morrissey pós-You are The Quarry. A minha implicância vinha do fato de Morrissey não ter mais um Johnny Marr ou um Vini Reilly (ou talvez até um Stephen Street) ao seu lado. Reclamava da falta de “textura, climas, arranjos”. Mas Morrissey não precisa necessariamente disso. É um artista completo. Tem carisma e talento para fazer com que qualquer banda o acompanhe. É verdade que os músicos que o acompanham na carreira solo não são nenhum exemplo de criatividade, são apenas corretos. Agora consigo até enxergar que ele precisava mesmo se libertar da sonoridade antiga e avançar. Mas confesso que a sonoridade de arena dos álbuns desta fase às vezes me assustam. Mas pouco interessa. Morrissey transcende tudo isto. “Low in High School” é um discaço!

MÚSICAS:

“Outono no Sudeste” — Maurício Pereira

“Walter White” — Tiago Cavaco

“Yikes” — Kanye West

“Hi Hello” — Johnny Marr

“Back on the chain gang” — Morrissey

“Everybordy Knows” — Stephen Stills & Judy Collins

“Woman” — Cat Power

“I don´t know” — Paul McCartney

“I´ll be your girl” — Decemberists

“Wait in the car” — The Breeders

“All nerve” — The Breedes

“Middle America”, “Solid Silk” — Stephen Malkmus

“Aspects” — Paul Weller

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Um Feliz Ano Novo a todos!

“Ora et labora et legere” (São Bento de Núrsia)

“Eu vos compensarei pelos anos que o gafanhoto comeu…” (Joel 2, 25)

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