fbpx

Um discípulo entre nós: o itinerário de Joseph Ratzinger em três atos

por Leandro Cunha*

“Sempre fiz assim. Quando criança, escrevia a lápis e assim continuei. O lápis tem a vantagem de que se pode apagá-lo. Quando escrevo à tinta, o que escrevi está escrito.” (“O Último Testamento”, 139)

Esta seria uma informação irrisória, destituída de sentido, se ignorada sua origem. Joseph Ratzinger (o emérito Bento XVI), conhecido largamente como intransigente e inflexível, confessa sua estranheza com a rigidez da letra feita à tinta. Lida em sentido aproximativo, esta informação biográfica sobre o papa emérito ilustra e traz novos (ou não tão novos) ares às representações dele feitas. Quem é, afinal, o teólogo da Baviera, sobre o qual pesa o crédito de “papa das ideias”, ou ainda, de uma teologia feita de um “gabinete” alheio à realidade?

Traçar a linha metodológica que costura a corpulenta obra de Joseph Ratzinger é um desafio para o qual exige-se demasiada força, afiado rigor e devida vênia. A tentativa, entretanto, de buscar a razão de seu labor, ainda que às apalpadelas (At 17,27), é o que vem enunciado nestas linhas.

***

1. Desde sua formação em Munique (inspirado por Friedrich Meier, ardente exegeta sob o qual pesou a “luta contra o liberalismo exegético”), as Sagradas Escrituras seriam a alma de seu estudo teológico. Assim, voltado às fontes primárias, a teologia ratzingeriana despontaria como uma teologia histórica. Famoso é seu trabalho apresentado para a obtenção da livre-docência, energicamente criticado como modernista por Michael Schmauss, retomando uma contribuição de São Boaventura sobre a Revelação, que seria posteriormente o cerne da discussão contida na Dei Verbum (a Revelação de Deus como “ato”, como “ação”, e não como “conjunto de conteúdos revelados”).

Neste aspecto histórico, encontra-se a obra sob Jesus escrita já em pena pontifícia (o texto mais conhecido midiaticamente, considera-se). Bento XVI, nos três volumes de Jesus Von Nazareth (Jesus de Nazaré), esforça-se por descosturar os textos bíblicos numa abordagem nomeada canônica. Para o papa, o grande motivador é ir de encontro à grande cisão oferecida pelo método histórico-crítico na teologia bíblica, isto é, a aparente distinção entre o “Jesus histórico” e o “Cristo da fé”. Considerando esta distinção, o papa conduz seu livro no sentido de enfatizar a indissolubilidade entre a historicidade do nazareno (aquele palestino) e o testemunho legado pelos Apóstolos. Assim, é na fonte evangélica que o rosto do Senhor (cf. SI 27,8) se dá a conhecer. A metodologia canônica assumida pelo pontífice é, talvez, a marca mais luminosa de seu labor teológico, condensada com primor neste exemplar. Ao procurar Jesus a partir do testemunho dele oferecido pela Igreja, o papa demonstra em chaves exegéticas organizadas tematicamente que o cerne do qual parte qualquer reflexão teológica é a fonte primeira da fé, a legítima Dei Verbum – a Revelação. Em Jesus de Nazaré, a preocupação manifesta é apenas uma: o reconhecimento de Jesus em sua mensagem e figura, o Jesus Real.

Sale
Jesus de Nazaré - Do batismo no Jordão à transfigu
  • Joseph Ratzinger
  • Publisher: Planeta
  • Edition no. 2 (03/01/2017)
  • Capa comum: 336 pages


Sale
Jesus de Nazaré - Da entrada em Jerusalém até a Re
  • Joseph Ratzinger
  • Publisher: Planeta
  • Edition no. 2 (03/01/2017)
  • Capa comum: 272 pages


Sale
Jesus de Nazaré - A infância - 2ª edição
  • Joseph Ratzinger
  • Publisher: Academia
  • Edition no. 2 (03/01/2017)
  • Capa comum: 112 pages

2. Ainda que tardia, a existência de uma expressão como a desta obra na história da reflexão de Joseph Ratzinger desvela a não tão oculta pretensão de sua missão: a voz da Verdade. Do problema da Verdade, o grande assentimento cristão em seu amém, o teólogo não poupou-se, trazendo-o, inclusive, em seu lema: Colaborador da Verdade. É cara a seu pensamento a precedência da Verdade assim como é manifesto aos seus olhos o movimento que destroça a Verdade em sua integridade, abandonando-a ao Relativismo e seus dentes devoradores (“como é antiquado indagar – hoje – sobre a verdade”, retoma de C. S. Lewis em “Fé, Verdade e Tolerância”).

Provocado em sua reflexão, Ratzinger, no verão de 1967, oferece ao mundo sua obra de maior alcance teológico em nível mundial pela qual ficaria conhecido pelas gerações, chegando até a atualidade em inúmeras tiragens. O texto que leva o nome “Introdução ao Cristianismo” é um verdadeiro tratado sobre a fé cristã. O autor utiliza-se do problema do crer na atualidade, somado à proclamação de fé do Símbolo Apostólico, e tece um grande comentário à existência humana, que, para ele, é a estrutura formal da fé. É nesta magistral obra, insubstituível em sua contribuição e atualidade, que o teólogo desafia a “linguagem operacional” no discurso sobre Deus, esvaziado daquele logos que é fundamento de todas as coisas, que é Deus e que é a sua relação com o humano – falta deste testemunho. O livro, recheado de toda espécie de digressão teológica, apresenta o Símbolo como se conhece confrontado com a atualidade e apontando sempre à existência, corrigindo, portanto, o “problema de Deus” em seus parâmetros e dimensões. O texto também evoca constantemente a insistência cristã na saída de si, devolvendo à experiência cristã sua expressão comunitária – communio, ecclesia. O livro, que à primeira vista parece debruçar-se sobra a arquitetura da fé, termina por impulsionar o leitor à face do Logos, do Sentido.

Sale
Introdução ao cristianismo: Preleções sobre o símbolo apostólico
  • Joseph Ratzinger
  • Publisher: Edições Loyola
  • Edition no. 8 (10/27/2005)
  • Capa comum: 272 pages

3. O teólogo da Baviera, chamado à prefeitura da Congregação para a Doutrina da Fé e, posteriormente, à posse das chaves petrinas, traz consigo, para além de toda especulação, um ponto focal, amplamente teológico, profundamente existencial: a virtude. Todo o desenvolvimento de sua reflexão desemboca cristalino no que há de mais original da expressão cristã, em tríade: crer, esperar e amar. Enquanto papa, Bento XVI deixou aquilo que pode ser considerado o vínculo gravitacional de seu trabalho com toda a vastidão da teologia. Nos seus escritos pontifícios, três se destacam como o coração de seu pontificado (no caráter teológico): o motu próprio Porta Fidei (com o qual foi proclamado o ano da fé, 2011), a Encíclica Spe Salvi (sobre a esperança cristã, 2007) e a encíclica Deus Caritas Est (sobre o amor cristão, 2005). O papa evoca, não em lógica cronológica, aquela ordem expressa em ICor 13,13 sobre as virtudes teologais. Na tríade das virtudes, o papa teólogo escreve o projeto de sua contribuição como pastor.

Escreve em primeiro lugar sobre a caridade (Deus Caritas Est), elevando-a para além das reduções hodiernas de sua compreensão – chamando-a, inclusive, de eros (termo estranho à atualidade, que marginaliza o que é do eros, do amor que procura, àquilo que há de mais genital na relação humana). Expressa ainda a dependência inevitável do vínculo humano com relação a Deus: só existe um “nós” humano pela obra do amor divino infundido que nos impulsiona a Ele e que nos faz, como Cristo, “tudo em todos” (ICor 15,28). Chama, enfim, a atenção às diversas manifestações da caridade como práticas caritativas e sua relação com a Igreja.

Em Spe Salvi, Bento XVI tece um hino à esperança cristã. Retoma a verdadeira fisionomia da Esperança, aquela que sustenta as esperanças menores, que é Deus. A vida eterna, como expressa no texto, não aliena o homem, mas o realoca na dinâmica do que é passageiro e do que é eterno, dando ao que é passageiro tratamento passageiro e fundando a esperança do que não passa. Elenca, enfim, os lugares de aprendizado e de exercício da esperança, evocando a face ativa do exercício da esperança e semeando o presente de eternidade.

Em texto mais curto, porém não menos importante, o papa convida a Igreja a refletir sobre a fé. Em Porta Fidei, a palavra de ordem é o crer. “A fé que atua pelo amor torna-se um novo critério de entendimento e ação, que muda toda a vida do homem”, diz o papa. Assim, a porta da fé é este limiar humano, que pondera a existência e ilumina o agir. Porta Fidei, ao contrário de seus antecessores, é um texto-base, aberto em sua conclusão; coloca-se diante do leitor, como constelação, luzeiro de reflexão, para que, ao acessá-lo, tenha condições de perceber o fio de ouro pelo qual está sustentada a vida humana em sua individualidade.

Carta Encíclica Deus Caritas Est do Sumo Pontífice Bento XVI. Documento 189
  • Papa Bento XVI Joséph Ratzinger
  • Publisher: Paulinas
  • Edition no. 8 (01/01/2007)

Carta encíclica "Spe Salvi" sobre a esperança cristã
  • Joseph Ratzinger
  • Publisher: Edições Loyola
  • Edition no. 3 (12/04/2007)
  • Capa comum: 64 pages


***

Três obras foram aqui pontuadas com fins ilustrativos. Outros tantos textos poderiam ter sido citados, não menos importantes em seus assuntos específicos, como os biográficos e as entrevistas (Lembranças da Minha Vida, O Último Testamento etc.), a ousada Declaração Dominus Iesus, a mistagógica Verbum Domini e o urgente “caráter performativo da Palavra”, seu artigo sobre a revista Communio e seus princípios “Communio: Um Programa” (texto que diz muito do próprio autor), o clássico Eschatologie (não traduzido para o português, infelizmente), o encontro com o clero de Roma naquele fevereiro de 2013 (uma aula magistral sobre o Concílio Vaticano II) entre outros.

Se não se fez entender o lugar de Joseph Ratzinger na experiência cristã, há uma última obra digna de menção. Diferente de tudo que já produziu, o papa emérito produz agora sua derradeira contribuição. Não há notas de rodapé, estenografia específica ou mesmo lombada especial. Escondido, o teólogo escreve o epílogo de sua vida. Em fino traço, cada vez mais suave, deixa seu testamento espiritual: estamos à deriva, náufragos na incerteza, mas atados à Verdade – este madeiro salvífico – que nos mantêm vivos, mais forte que o nada que fervilha sob nós.

*Leandro Cunha é Bacharel em Teologia

Compartilhe