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Uma bondade verossímil

        “A natureza humana é sondável e o que se descobre, quase sempre, não faz bem à saúde.” (Trinta Anos esta Noite, Paulo Francis)

      “De quando em quando na vida do espírito desanuvia-se aquele céu plúmbeo e baixo em que Baudelaire via a tampa da marmita na qual, segundo ele, ferve a humanidade. São raros esses momentos, mas de uma clareza própria a desnudar como nunca os pólos extremos de uma velha e enfumaçada questão: ver ou não ver”. (Bruno Tolentino, prefácio à “o Jardim das Aflições”, de Olavo de Carvalho)

Carlos Heitor Cony escreveu sua primeira sequência de romances para testemunhar a falência do homem, da família e da civilização judaico-cristã ocidental, de acordo com seu amicíssimo Ruy Castro, a despeito dos três – o homem, a família, a civilização – continuarem caminhando vivinhos sobre a face da terra.  

A maioria dos homens, ao entrar na Igreja (Cony foi seminarista), experimenta a vida divina. Cony experimentou a morte de Deus. Essa foi sua marca como romancista: descrever um mundo onde Deus está morto. Descreveu genialmente um mundo que não existia. Foi um grande escritor.

Talvez só estivesse certo a respeito da civilização. O homem está vivo porque Cristo está vivo. A família está viva porque está inscrita na natureza humana. A civilização ocidental foi um efeito colateral da evangelização. Mas isso é papo para outra hora…

O romance “Claridade”, de Renato José de Moraes, lança um olhar sobre um mundo que  — ao contrário do mundo de Cony — existe. Um personagem como o protagonista Ricardo, é capaz de encher o peito do leitor de esperança porque é verossímil. Se você vasculhar a realidade, perceberá que existem alguns ricardos espalhados por esse mundo, ou ao menos reconhecerá traços seus nas personalidades que nos rodeiam. Renato de Moraes tem uma coragem rara: é um narrador sem medo de contemplar o real  e nele encontrar bondade, beleza, esperança, pureza, inocência… Sem criar um mundo cor-de-rosa, mas com a valentia para enxergar que a condição humana não é só angústia, precariedade e decadência. Seria mais fácil enveredar, como quase todo mundo na literatura (e cultura) atual, pelos caminhos do cinismo, da ironia, da violência pornográfica e da sexualidade explícita (que rende $$$).  Escatologia e niilismo é que são cool

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Claridade
  • Renato Moraes
  • Publisher: Record
  • Edition no. 1 (04/23/2018)
  • Capa comum: 546 pages

Espanta-me que alguns leitores enxerguem como um defeito do livro – e até fiquem revoltados com a “conduta inverossímil” de  Ricardo, como alguns outros personagens do próprio romance – que ele seja um manancial de Bondade. E que a trama deixe transparecer, no próprio olhar do narrador, certo frescor que parece beirar a ingenuidade (Renato nada tem de ingênuo, sabe muito bem o quer). Para um mundo como o nosso é inconcebível que a pureza e a inocência possam ser levadas em conta como qualidades literárias. Depois de Nietzsche, Darwin, Marx, Sartre, Camus, Freud, Bernanos e, porque não, Flannery O’Connor e Carlos Heitor Cony, a Bondade como via tornou-se impossível? O romance de Renato, sem proselitismo e panfletagem, é uma amostra de que não.

As duas opções fundamentais de Renato Moraes foram a escolha por contar uma boa história, sem usar experimentalismos vazios, tão típicos da narratofobia atual e a ousadia de retratar a realidade como ela é. Sei, dizer isso já virou clichê, mas preciso dizer que poucos autores recentes conseguiram desembaçar o vidro quanto Renato Moraes ou, como dizia Bruno Tolentino citando Baudelaire, conseguiram “tirar a tampa da marmita”. Claro que na superfície da realidade, aquilo que conseguimos captar no dia-a-dia (gente sacana, deprimida, desanimada, egoísta, reclamona ou situações absurdas), pode causar náusea. Mas quando começamos a nos aprofundar na vida refletida, a adentrar o mundo da contemplação, aguçamos a percepção para penetrar a existência de uma Bondade que continua a existir, como um rio subterrâneo que flui, nas camadas mais profundas da realidade. E que há uma bondade no cerne do coração dos homens. Tudo isso só é possível quando se leva em conta a dimensão transcedente.

Recentemente, assisti à uma entrevista com o Papa Francisco na qual o entrevistador se aferrava insistentemente em temas imanentes, puxando a conversa sempre para baixo, parecendo esquecer-se de que o Papa é representante daquele que disse: “devo cuidar das coisas de meu Pai”. O Santo Padre saiu-se brilhantemente, porque conseguia, com serenidade, iluminar os temas com a luz que vem do Alto. Assim a entrevista, que virou um belíssimo filme, foi salva. Mas quando se coloca a tampa na marmita, a vida torna-se sufocante, paramos de olhar para cima, e a bondade é jogada para escanteio.

Me desculpem usar exemplos do meu dia-a-dia para ilustrar uma resenha, que deveria ser um texto técnico. Problema, vou continuar do meu jeito. Outro dia mesmo um amigo contou-me que uma funcionária de sua repartição olhou para uma tatuagem sua em que estava escrito “menino Jesus, miserere nobis, segure com força a minha mão” (um verso de Jorge de Lima) e perguntou: “Você leva a sério mesmo esse negócio de Jesus, né? Vai todo dia ao convento; o que você vai fazer lá?”. Meu amigo, que  tem o costume de confessar-se uma vez por semana, papeando, relatou sua prática religiosa e despertou na funcionária uma nostalgia pelo sagrado e pela Bondade. Até aquele dia, ela seria apenas uma faxineira meio porra-louca e ele um tatuado meio esquisito que vai ao convento. Não sei o que aconteceu a partir de então, mas não dá para negar que ali aconteceu um “vislumbre de explicação” (procurem o belíssimo conto de Graham Greene com esse título) que abriu uma porta para os patamares da Bondade.  

Para contar mais um causo,  certo pai, chamado à escola para uma reunião, ouviu de uma pedagoga, nas entrelinhas, que seu filho era bom demais, que não lutava pelo que era seu, que não era independente e não tinha atitude. Ouvindo nos relatos que seu filho dava o lugar para os outros na fila, que perdia o recreio para ficar com um amiguinho engessado e outros absurdos deste quilate, acabou percebendo que a pedagoga, na verdade, queria aplicar a filosofia do “bonzinho só se ferra” com seu filho. Essa filosofia não suporta os ricardos deste mundo. E pur si muove: os ricardos estão por aí.

Talvez “Claridade”, ao lado de “Os Invernos na Ilha”, de Rodrigo Duarte Garcia, sejam romances alienígenas em meio à uma literatura que preferiu a experimentação e psicologismos à contar uma boa história, ou à um ambiente cultural que se acostumou a identificar a natureza humana com a angústia e a realidade à eterna desgraça (ontem, numa entrevista, escutei um cantor dizer: “o mundo sempre foi essa merda que está aí…”). O tradutor Eduardo Levy, falando sobre a produção recente de Woody Allen (que dirige filme atrás de filme numa patinação existencial que se tornou uma espiral agônica paralisante), cunhou uma frase genial: “O problema de Woody Allen é que ele leu Dostoievski todos os dias da sua vida mas nunca teve coragem de ajoelhar-se diante de Sonia”.). É uma pena  que esse não seja um problema específico de Woody Allen. Virou uma febre.

Não podemos deixar de falar também do insalubre domínio ideológico que faz com que muitos romancistas sintam-se obrigados a adotar temas “sociais” sob a pena de serem taxados de burgueses. Já dizia Suassuna: “Quando um autor carrega muito na idéia, quem paga é a arte”. Como os tempos são os que são, é preciso dizer: idéias de esquerda e de direita. Arte não pode vir com pacote ideológico.  

“Claridade” é uma lufada de ar fresco e uma esperança. É apenas o primeiro romance de Renato de Moraes e um belo início de caminhada, pois temos nos acostumado a formar panelinhas e a analisar todos os escritos de nossos amigos e conhecidos sob o prisma do extraordinário. Não me atrevo a dizer que o autor precisa melhorar, aprimorar o estilo, aprofundar a linguagem, mas é provável que sim. Graças a Deus, nem todo mundo é Rimbaud, que esteve pronto aos 15 anos. Que venha o próximo! Não o digo porque precisemos de mais bondade e claridade em nossa literatura (embora precisemos de fato). Precisamos de escritores que façam exalar beleza  — e por que não leveza? — movendo-se contra a correnteza niilista e nonsense.

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